Inspector Zé e Robot Palhaço em: Crime no Hotel Lisboa

Escrito por

Gonçalo "Melgacius" Carvalho

Data de publicação

19 Outubro 2020 12:17

Tópicos

Tenho de começar por dizer que não consigo total objectividade na análise deste jogo. Entendam que a minha nota final pode estar enviesada quer por penalização de alguém que gostamos para não ficarmos com a ideia que os beneficiamos, quer o contrário. Infelizmente não sei em que plano me encontro, mas julguem por vós.

Grim Fandango traumatizou-me demasiado para eu jogar jogos point and click. Não vou, não toco, não quero. A Nintendo desafiou os portais a falar sobre o jogo e tenho que admitir que Inspector Zé e Robot Palhaço em: Crime no Hotel Lisboa foge a muitos dos meus receios com estes jogos, e apenas alguns problemas estruturais me impediram de o acabar de forma mais rápida.

Com uma história absurda, onde Sebastião Love supostamente se suicida com 14 facadas nas costas enquanto bebe o seu café como plano de fundo, o Inspector Zé e o seu ajudante Robot Palhaço tentam disfarçar a inépcia das forças policiais. Tudo parece absurdo pois a conjugação de várias vertentes do jogo dão sempre uma visão das séries humorísticas dos anos 80 onde a piada não tinha piada. Por diversas vezes me lembrei de Duarte e Companhia, embora nada do que aqui se passa remeta para essa série. O jogo em si está cheio de referências a esta época e, por saber que os autores apreciam a terminologia, direi que são detalhes deliciosos.

Uma mistura de estereótipos com justificações mais ou menos conseguidas pautam o jogo do início ao fim, mas há muita coisa que nem sempre resulta. Deixo isso para depois.

 

Fiquei contente por não ter de recorrer à táctica de clicar em tudo e ver no que dava. Crime no Hotel Lisboa é maioritariamente um jogo lógico. O jogo sofre um pouco pela versão em si (joguei na Switch), pois há momentos em que temos que ser muito precisos no local para onde apontamos ou não nos surge a opção de interagir com um objecto. Mais que uma vez tive esse problema, uma delas fez-me andar literalmente horas para trás e para a frente a clicar em todo o lado, mesmo quando a minha intuição me dizia que era com aqueles objectos que tinha de interagir, apenas não me surgia a opção.

Nessa hora apercebi-me também que o jogo nos dava indicações supondo que naquela altura já teríamos determinada informação, e seguindo essa indicação ia dar a um beco sem saída, pois na verdade ainda não tinha o que era necessário para a executar. O jogo está tão truncado que mesmo quando eu sabia uma coisa o jogo dizia-me que não sabia porque não era altura de o saber, ou faltava algo para ele assumir que eu sabia.

Contudo, superados e percebidos estes problemas, o jogo é bastante lógico. Gostei disso. Muito do jogo é feito de andar para trás e para a frente num táxi tradicional de Lisboa nos anos 80. Ponto positivo por dois motivos, por um lado disfarça a maneira meio lenta e desengonçada com que que as personagens se movimentam, por outra poupa-nos imenso tempo.

A história em si é engraçada e estruturada. Para mim está óptima e provavelmente não acrescentaria ou mudaria o que quer que fosse. Vamos ao elefante na sala? O humor. Humor é subjectivo. Quem me conhece sabe que eu sou um Batanete de primeira, logo qualquer uma destas piadolas me faz sorrir. Gostei do minijogo em que ajudávamos o Robot Palhaço (que queria ser palhaço de circo) no seu número de stand up. Algo que também pode causar alguma celeuma são algumas das piadas, mas aí meto as mãos do Diogo e do Pina no fogo (nunca as minhas, irra!!) em como em nada estas reflectem a sua visão sobre o mundo. Quaisquer dois dedos de testa e uma vontade de ver o jogo como ele é em vez de causar problema, facilmente depreendem que estas servem para caracterizar os personagens, a época em que estes se inserem e o tipo de humor utilizado à data. Podiam ter jogado pelo seguro? Bem, talvez, mas nunca concordarei em limitar a liberdade criativa dos autores. Depois há que assumir o resultado. Faca de dois legumes!

Também a dar uma no cravo e outra na ferradura o momento de inquérito com os suspeitos. Gostei da forma como o inquérito funcionava. Duma forma resumida temos de escolher uma pergunta para fazer ao suspeito e apresentar a prova onde suportamos essa pergunta ou hipótese. O sistema é elegante, mas deve ter dado problemas a quem o fez, pois não é fácil sustentá-lo até ao fim, e a certo ponto a dificuldade das perguntas não estava em saber o que perguntar, mas em como o perguntar não havendo aparente penalização em errar, e ainda bem porque de vez em quando saber se era uma pergunta ou outra não diferia muito.

O jogo é parco em efeitos sonoros e não vejo problema nisso, a música é que acaba por se tornar repetitiva. O Fado também foi incluído no jogo de forma surpreendentemente bem enquadrada. Acima disso não apanhei Galos de Barcelos e só por aí subo um ponto.

Graficamente todo o pixel-art é excelente. A mim conquistam-me quando investem muito tempo nisso. Tentaram também incluir eléctricos e outros veículos de época a passar à nossa frente quando estamos na rua, talvez para disfarçar um bocadinho o vazio destas, mas com o tempo torna-se irritante estarem sempre a passar à nossa frente a bloquear a vista e caixas de texto. Se havia algum objectivo, escapou-me. Mesmo o detalhe generoso dos gráficos de vez em quando obriga a alguma minúcia no posicionamento dos personagens, pois qualquer centímetro do Robot Palhaço no local errado nos impede de interagir com algum objecto ou personagem.

Assim chego ao momento agre e doce deste texto. Gostava que este jogo tivesse material para jogo do ano. A malta que o fez já partilhou, mesmo sem o saber, tantas horas de viagem comigo que me vejo a torcer por eles. Infelizmente na minha opinião o que tem de bom equilibra o que tem de menos bom. Numa mão temos o enredo tresloucado, no outro a música repetitiva. Numa mão o método interessante de inquérito, na outra a forma meio ao calhas como diferenciava algumas perguntas. Numa mão o humor Batanete que adorei, na outra os controlos que nesta versão não são propriamente precisos. Enfim, provavelmente quem gosta destes jogos vai achá-lo pouco desafiante, para quem não gosta falta, à primeira vista, aquele gancho que torne a experiência relevante e os obrigue a comprar. Seja como for, eu diverti-me bastante e não dou nenhum segundo que passei a jogar o jogo como mal empregue. No fundo é isso que conta certo?

  • Lançamento: 17 de Julho de 2014 (versão original)
  • Plataformas: PC/Xbox One/Switch/PS4
  • Desenvolvedor: Nerd Monkeys
  • Editora: Nerd Monkeys
  • Nota Pessoal: 6.5/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Nintendo Portugal

Lançamentos

 

PositronX
29 Nov 2020
PC
Scorpius Games
Immortals Fenyx Rising
03 Dez 2020
PC/Xbox One/Nintendo Switch/PS4/Stadia
Ubisoft Quebec
Puyo Puyo Tetris 2
08 Dez 2020
PC/Xbox/Nintendo Switch/PS
SEGA

Guias

Ver todas

TOP Reviews

Ver todas