Loop Hero

Escrito por

Ricardo "Jaclops" Martins

Data de publicação

23 Março 2021 14:51

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Cá estamos outra vez a analisar mais uma curadoria da Devolver e para variar (ou não!) mais um jogo com uma premissa um bocado estranha. Loop Hero, o que é? Um deck builder? Um jogo idle? Um RPG? Um base builder? A resposta é sim, isso e muito mais.

Mais uma vez a Devolver não desilude. A curadoria desta publicadora pode, de certa forma, ser questionável, mas a verdade é que têm um óptimo olho para jogos fora da caixa e ao longo do tempo foram desenvolvendo estatuto de editora com bons jogos. Se algum jogo vem da parte da Devolver vale pelo menos verificar se têm algum interesse nele. Com isto não digo apenas ver uns vídeos de pessoas a jogarem o jogo, mas realmente experimentar. Digo isto por experiência própria, pois vi uns vídeos do Loop Hero e não me chamou propriamente à atenção, mas quando o experimentei a minha ideia sobre ele mudou completamente. Eles realmente têm olho para a coisa.

Deixem-me tentar explicar melhor. Loop Hero pega no que de melhor existe num jogo idle de telemóvel, num deck builder, num RPG, num base builder e na estética assim como forma de abordar de um jogo da retaguarda, mistura tudo com muita perícia e sai uma argamassa espantosamente consistente. Começamos com um tutorial bastante simples que nos introduz às mecânicas fundamentais, assim como à história que dá sentido ao gameplay. O mundo e as memórias sobre o mundo foram roubadas por um feiticeiro fazendo com que tudo tenha sido evaporado para o limbo, excepto o nosso herói como seria de esperar. Com a convicção de que será capaz de salvar o mundo e reverter o que aconteceu a nossa personagem parte em expedições cíclicas em busca de memórias da realidade passada de forma a materializa-las. É uma ideia um bocado rebuscada, mas que dá algum sentido ao jogo assim como alguns momentos de história bastante cómicos.

Esta pequena apresentação das mecânicas é ridiculamente limitada tendo em conta o quão profunda a estratégia do jogo pode ser, e acreditem pode ser tão profunda quanto o vazio do limbo. Depois do tutorial somos largados na nossa primeira expedição, no nosso primeiro loop. O mapa no qual nos deslocamos é cíclico e só podemos andar em frente como o herói destemido que somos. Na verdade o nosso herói é tão destemido que nem o conseguimos controlar, todas as acções do personagem são automáticas e não temos controlo sobre elas. Onde é que entra o bem dito gameplay? Na forma como interagimos e moldamos o mapa, no equipamento que usamos e quando, ou se, desistimos mais cedo da expedição.

Quando começamos no primeiro loop o mapa é como se fosse a terra de ninguém onde só podemos encontrar umas bolas de gelatina como inimigos. No entanto como o nosso objectivo é popular o mapa com terrenos que nos oferecem benefícios e inimigos. Para tal utilizamos as cartas na nossa mão que representam terrenos e colocamos no mapa para que quando passarmos pelo quadrado onde a enfiámos possamos ganhar recursos assim como fazer aparecer novos inimigos que nos dão equipamento quando derrotados. Na primeira expedição é tentador encher o mapa o máximo e o mais rápido possível de terrenos para obtermos tantas recompensas como conseguirmos. Esse foi o meu grande erro… À medida que vamos dando voltas ao mapa os inimigos vão ficando com mais vida, mais dano e largam equipamento melhor. Quando dei por mim tinha o mapa tão populado de bichos que até as batalhas contra inimigos ditos básicos já eram um sofrimento como a gritar para o boneco para atacar mais rápido senão ia morrer. Pois claro que foi isso mesmo que aconteceu passado pouco tempo. Depois desta primeira experiência deu para perceber que temos que fazer uma gestão cuidadosa de quando e onde colocamos os terrenos no mapa de forma a não nos metermos em desvantagem, mas ao mesmo tempo sem fazermos com que os loops tenham tão poucos inimigos que nem conseguirmos obter equipamento de jeito. Pode parecer fácil, mas um terreno colocado no sítio errado ou no momento errado pode levar-nos à morte. Para além das cartas que usamos no mapa também existem cartas que podemos utilizar no espaço que o rodeia, como montanhas, prados, floresta, desertos e afins. Em geral estas cartas só nos trazem benefícios como curar um certo número de vida no início de cada dia, dar-nos mais vida máxima ou até aumentar a velocidade a que o nosso personagem ataca, no entanto, existem mecânicas escondidas que nos levam à experimentação que para mim é o verdadeiro forte deste jogo. Quando colocamos nove montanhas ou pedras numa grelha de 3X3 esses terrenos transformam-se no pico duma nova e maior montanha que nos aumenta a vida máxima consideravelmente assim como também traz o senão de se transformar no ninho de harpies, inimigos incrivelmente chatos que voam para qualquer quadrado do mapa para tornar a nossa vida um pesadelo. São estas nuances e experimentações que fazem do Loop Hero um jogo tão interessante, estar constantemente a pensar “se meter este terreno ao lado deste será que faz alguma coisa diferente?”.

O mesmo pode ser dito do equipamento que usamos. Podemos escolher usar equipamento que se foque mais em dar lifesteal ou regeneração por segundo, maior chance de evitar ataques do inimigos ou mais defesa, etc. Estas escolhas podem mudar completamente a forma como o nosso personagem se comporta em batalha contra diferentes tipos de inimigos, o que nos leva a irmos adaptando o equipamento consoante os próximos inimigos com que nos vamos debater. E tal como os terrenos, escolhermos trocar uma peça de equipamento por outra no momento errado pode ser o que nos leva à morte em dois ou três combates.

Após retornarmos de uma expedição podemos utilizar o vários recursos que adquirimos para reconstruir o nosso acampamento. Com eles construímos quintas, forjas e torres de vigia para aumentar a nossa chance de sobrevivência nas expedições, assim como para desbloquear novas cartas para adicionarmos ao nosso deck. Estas construções dão nos grandes benefícios como começarmos a expedição com equipamento básico em vez de nus, aumentarmos a vida que regeneramos quando passamos pelo acampamento no início de cada loop, recebermos ajuda de arqueiros em certas zonas do mapa ou até desbloquear novas classes com que possamos jogar.

Com alguns destes upgrades desbloqueados é bem mais fácil conseguir atingir o boss de cada capítulo assim como dar-nos chance de o derrotar. A mecânica por trás de como atingir os bosses é interessante. Durante as expedições temos uma barra no canto superior esquerdo que vai enchendo à medida que vamos colocando terrenos no mapa, quando a barra estiver cheia o nosso acampamento desaparece e é transformado numa boss fight que teremos de combater no início do próximo loop. Portanto, mais uma vez, queremos fazer uma boa gestão da quantidade de terrenos que utilizamos e quando os usamos porque não queremos chamar o boss antes de termos o equipamento necessário para o combater. Todo este jogo está feito como se fosse uma balança interessante e desafiante.

Inicialmente achava que era só mais um jogo de telemóvel que tinha vindo à luz no reino do PC, mas estava completamente enganado. Loop Hero é uma mescla de muitos tipos de jogos que foi feito com tanto cuidado que é difícil apontar algo negativo sobre ele. É todos os estilos mencionados previamente e ao mesmo tempo não é nenhum deles, Loop Hero é o seu próprio jogo e sabe bem o que quer ser. Fiquei surpreendido o quão profunda é a estratégia e experimentação que estão escondidas neste jogo e tanto me deu momentos de frustração como de maravilha ao tentar descobrir os seus segredos. Para quem gosta de um jogo relaxado mas que dê para puxar pela cabeça este pode ser óptimo para saciar, mas não pensem que não há momentos de tenção porque muitas vezes dei por mim colado ao ecrã a gritar para o meu herói dar a última paulada ao boss. A Four Quarters criou um jogo tão especial e viciante que é de louvar.

  • Lançamento: 4 de Março de 2021
  • Plataformas: PC
  • Desenvolvedor: Four Quarters
  • Editora: Devolver Digital
  • Nota Pessoal: 8,5/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Devolver Digital