Tell Me Why

Escrito por

Gonçalo "Melgacius" Carvalho

Data de publicação

27 Agosto 2020 17:05

Tópicos

A Dontnod vai sempre ser recordada por mim como a criadora de Life is Strange. Sinceramente não me sentia nada atraído por estes jogos até jogar Where The Water Tastes Like Wine, sendo que como passei um bom bocado acabei por jogar mais uns poucos. Sem me ter deslumbrado Tell Me Why é um jogo muito bem construído que certamente vai agradar aos fãs do género, e atrair atenções… por mais que uma razão.

Escrevi várias versões deste texto, esta é a final, a mais cinzenta de todas. Muitos de vós já me conhecem o suficiente para saberem que o meu ponto de vista é normalmente o ponto intermédio em relação a quase tudo. Tell Me Why passou muito tempo a fazer-me tirar notas sobre elementos acessórios ao jogo em si. Por vezes penso que talvez o acessório é que seja o jogo e o facto de o ter jogado todo seguido não me tenha dado tempo para perceber esse facto, mas há aqui margem para este ser um jogo que engana muitos dos jornalistas, eu incluído.

No Alaska esquecido e ostracizado reúnem-se dois irmãos 10 anos após um deles ter morto a sua mãe em legítima defesa. Reencontram-se para limpar a casa onde cresceram para que a possam vender e seguir com as suas vidas. Contudo nessa altura começam a descobrir coisas sobre o passado e continuam a investigar mais para encontrar tudo o que os faça perceber melhor o porquê da sua mãe ser como era. Posso descrever o jogo como uma experiência narrativa com uns puzzles pelo meio. Há alturas onde encontramos alguns objectos coleccionáveis e pouco mais. O enfoque é mesmo na história, no diálogo e na ilusão da escolha.

Como habitual o jogo leva-nos a crer que escolhemos como o jogamos, mas muitas vezes o caminho está predefinido, apenas escolhes a estrada por onde lá vais dar. Não feches já a página, há decisões mais impactantes, decisões essas que já alteram o desenrolar da acção de forma mais visível. Não é nada fácil fazer isto. Está perfeitamente dentro do esperado.

Os irmãos partilham uma mecânica de união, sobre a qual não quero dar spoiler, mas que é parte essencial da jogabilidade e da maneira como vais ver o jogo. As suas memórias de criança vistas com 10 anos de diferença dão outra luz ao passado. Neste caso o passado dói e é sobre essa componente emocional que o jogo é construído.

Tell Me Why tenta equilibrar personagens mais neutras para fugir aos estereótipos e uma narrativa muito mais carregada, e isso acabou por me transmitir ideias contraditórias. Fiquei sempre com a ideia que havia espaço para mais, mas que houve alguma contenção aqui e ali por força da personalidade das personagens. O resultado final está longe de desagradar, mas nunca tive aquele momento de dor ou pena, aquele momento em que criava um laço tão forte com as personagens que ficava desolado pelo que lhes acontecia. Nunca tive aquele momento de genuína dúvida sobre o que escolher por estar sinceramente preocupado com o que a minha decisão ia criar no futuro de qualquer um dos irmãos… ora, isso é fundamental nestes jogos.

Para terem uma ideia, no final de cada capítulo aparecia a percentagem de decisões que cada pessoa tinha tomado. Obviamente apenas quem teve acesso antecipado ao jogo estava incluído nesse rácio e por norma a malta que analisa jogos acaba por ser um bocado grunha a jogar, mas mesmo assim, e agora vou atirar um bocado para o ar, talvez 80% das minhas decisões tenham entrado no campo da maioria. Talvez também 80% das decisões nem sequer tenham sido equilibradas. O ideal era estar tudo perto de 50/50 para mostrar que seria difícil decidir, ou que ambas as opções ofereciam similares riscos ao decisor.

Digo isto, mas em nenhuma altura do jogo eu imaginei o passo seguinte. Muitos jogos estamos a jogar e a imaginar o que vem a seguir e aqui isso não aconteceu. Tentei dar algum tempo entre capítulos, mas não foi fácil, primeiro porque não tinha assim tanto tempo para jogar o jogo todo e escrever este artigo, por outro lado porque queria mesmo ver o que o capítulo seguinte reservava. O meu equilíbrio foi jogar um deles por dia, mesmo assim esta noite eram 4 da manhã quando acabei de jogar porque não consegui parar de o fazer. Queria ver o fim que me calhava. Sim, tem múltiplos fins, não fazia sentido ser doutra forma. Ainda tenho outro jogo a bem mais de meio que irei acabar brevemente de certeza. Nesse estou a tomar decisões completamente diferentes, pois claro.

 

Há algumas coisas que tenho de mencionar. O jogo é belíssimo. As personagens e paisagens são deslumbrantes. Houve imenso cuidado nos efeitos sonoros e vozes. A música é adequada. Tecnicamente adorei. O jogo corre sempre a 30 frames por segundo, e mesmo tendo tanto de filme como de jogo, há alturas em que parece uma apresentação de slides, estou mesmo mal habituado. Mesmo nas últimas 5 ou 10 falas eu tive um glitch, mas quase de certeza que não irá aparecer na versão final. Tenho uma queixa a fazer neste departamento técnico. Nos momentos de maior intensidade de diálogo, nos momentos mais fortes da história, que nos deviam estar a sentir maior emoção há uma clara dessincronia entre o boneco, a sua emoção e a sua voz. Não só a sincronia labial, mas também a linguagem corporal e postura relativa do boneco. Irás certamente notar isso acontecer.

Este jogo tem potencial para críticas dispares. Eu coloco-o ao nível de Life Is Strange. Embora o tenha jogado há muito tempo creio que no geral me tocou nos mesmos pontos, embora de maneira diferente. Parece-me claro que este jogo cria mais diversidade no portfólio da Xbox, é um excelente jogo para o Game Pass e consegue incluir “sub-discussões” bastante actuais. Tecnicamente bastante bom e com uma história que em nenhum ponto me permitiu jogar pela antecipação, este jogo tornou-se a terapia de substituição ideal por não ter conseguido jogar o Microsoft Flight Simulator. Não vai entrar na discussão para jogo do ano, mas tem muito material para ser discutido ao longo das 3 semanas que demorarão a sair os 3 capítulos da história. Se és fã do género este é um jogo que recomendo.

  • Lançamento: 27 de Agosto de 2020
  • Plataformas: PC/Xbox One
  • Desenvolvedor: DONTNOD Entertainment
  • Editora: Xbox Game Studios
  • Nota Pessoal: 8/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Xbox Portugal
  • Analisado na versão para PC

Lançamentos

 

Super Mario 3D All Stars
18 Set 2020
Nintendo Switch
Nintendo
Mafia III: Definitive Edition
25 Set 2020
PC/Xbox ONE/PS4
Hangar 13
Crash Bandicoot 4: It's About Time
02 Out 2020
Xbox One/PS4
Toys for Bob

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