Valheim

Escrito por

Gonçalo "Melgacius" Carvalho

Data de publicação

17 Março 2021 14:00

Tópicos

Andei a protelar a escrita desta antevisão por demasiado tempo. Subconscientemente sei que mal apresente o texto vou-me forçar a avançar para outro jogo, limitando severamente o tempo que posso dedicar a um jogo de conforto. Valheim tem tudo para ser um desses jogos de conforto. A verdade é que me apaixonei por este joguinho e me está a custar demasiado pensar em deixá-lo…

Quando Richard Svensson começou, sozinho, a trabalhar em Valheim estaria certamente longe de imaginar que em pouquíssimo tempo o jogo teria vendido 5 milhões de unidades e se tornaria um dos mais jogados no Steam. A própria Iron Gate, aquando do lançamento com 5 funcionários, embora provavelmente soubesse que tinha um bom produto, não devia por as mãos no fogo por ele, afinal o mundo dos videojogos é bastante esquisito, muitas vezes imprevisível, e mais vezes que o contrário, um bom jogo Indie acaba enterrado debaixo de toneladas de lixo que surgem à sua volta, ou mesmo que tenha alguma exposição, múltiplas vezes não ganha a tracção suficiente para se tornar relevante.

Felizmente Valheim tornou-se, com as devidas proporções, o Animal Crossing deste ano. A verdade é que ter a malta em casa puxa a um jogo que possa ser jogado cooperativamente, mas sem a pressão duma competição, ou sem o risco intrínseco de aparecer um gandim só com o objectivo de estragar a nossa diversão.

Então temos em Valheim um survival essencialmente PvE, que te deixa jogar sozinho, mas te dificulta muito a vida aquando dos bosses se assim o fizeres. Há outros jogos que tentaram a fórmula survival PvE mas sem o mesmo sucesso. Green Hell nunca me convenceu dada a sua enorme dificuldade, e mecânicas tão elaboradas que para mim eram somente rebuscadas. Grounded é também um excelente jogo, mas num mundo muito mais pequeno e controlado, onde depois de o percorreres todo, facilmente dominas os seus segredos e manhas. Valheim é gigante, talvez até demais. Quando hoje descobri mais um bioma comecei a transpirar só de pensar que posso ter mais minério para transportar e a minha segunda base é para lá do sol posto…

Sim, este jogo é composto por diversos biomas, cada um deles com as suas características, adversários, dificuldade e materiais próprios. O jogo está estruturado para que da primeira vez que o jogues comeces no bioma mais fácil, mas mesmo assim o mais provável é que morras mal chegue a noite, já que de noite o número de adversários cresce consideravelmente, isto ao ponto de eu ter mesmo receio de andar de noite num bioma que seja adequado ao meu nível durante o dia. É desta forma que tens uma sensação e progressão. Vais dominando os biomas mais fáceis, fazes upgrade às tuas armas e armadura consoante os materiais a que tens acesso, avanças para o bioma seguinte. O loop do jogo é basicamente este, mas há muito, muito mais.

Agora cuidar da horta e da cozinha.

Uma das coisas que me aborrece mais na maioria dos survival é o tempo que temos de dedicar a procurar comida e bebida. Valheim tem um sistema curioso que, para começar, dispensa a água, logo um problema resolvido, e depois permite-te comer até três alimentos diferentes que aumentam, consoante a sua qualidade e complexidade, a tua vida e resistência. Isto acaba por incentivar que cultives vegetais e cries animais. Sim, sim, terás uma hortinha e podes domesticar animais. Mesmo que não faças nada disto há alimentos em abundância, mas a certo ponto a vida fica curta com alimentação básica e a maneira mais fácil de teres tudo o que precisas é mesmo seres tu a cultivar.

Custou-me um batalhão de vidas mas consegui domesticar lobos que após se tornarem meus animais de companhia, passaram a dar uma ajuda grande com os inimigos, embora eu só tenha conseguido domesticar os mais fracotes, que na prática não eram grande ajuda, mas se algum dia conseguir fazer o mesmo com um dos bons…

Bloqueio e fuga. Técnicas essenciais.

A luta é enganadoramente fácil. Valheim está longe de ser um portento gráfico, bem pelo contrário, e a forma como está feito permite aproveitar alguns glitches para eliminar adversários que doutra forma não conseguiríamos. Por exemplo, basta-me estar um ou dois centímetros mais alto que o meu adversário e já não lhe acerto, o contrário também é verdade, o que torna este jogo talvez o único em que controlar o terreno mais alto não é vantajoso, bem pelo contrário. Muitas vezes associava isto ao uso do arco, que embora inserido num vasto reportório de armas, tornou-se a minha arma de eleição para estas mafiosices. Era comum encontrar um sitio em que se desse um passo atrás os inimigos maiores terem de fazer um caminho longo para chegarem a mim, mal eles se punham a andar eu dava novamente um passo à frente fazendo com que o caminho ideal mudasse e eles voltassem para trás, ficando presos neste vai e vem que os deixava praticamente no mesmo local, sempre longe de mim, mas a distância boa para os arrumar com flechas.

Já os inimigos mais pequenos não caíam neste engodo. Todos os nossos golpes estão dependentes da resistência que tem de ser constantemente vigiada. É essencial dominar a técnica de parry. Muitas vezes é com ela que abrimos uma brecha para atacar inimigos mais fortes ou de nível similar ao nosso. Bem, mesmo inimigos mais fracos acabam por criar mossa ao longo das lutas e considerando que recuperamos vida devagar, entrar à Rambo apenas é viável quando já estamos overpowered para esse bioma. Tens de avaliar bem onde te vais meter e fazer o possível para enfrentar os inimigos de forma isolada, sendo que múltiplas vezes tentava eliminar à distância o máximo de inimigos que conseguia para simplificar a minha luta, e mesmo assim era frequente ter de fugir ou, em alternativa, ir recuando para ganhar resistência e esperar por uma aberta.

Embora o jogo escale a dificuldade conforme o número de jogadores no jogo, jogar com mais que um abre um leque maior de possibilidades. Quando joguei com o Jaclops o jogo tornou-se consideravelmente mais fácil porque podíamos enfrentar os inimigos de mais que um ângulo, ou um podia distraí-los para que outro os pudesse atacar livremente.

A minha casinha!

Também é habitual estes jogos terem uma componente de base building, Valheim não é excepção. Depois do choque inicial, de perceber como funcionava o jogo, e de saber como trabalhar o solo para facilitar as construções, tenho a dizer que te permite construir tanto, mas tanto, mas tanto que por vezes nem sei como é que a imaginação de alguma malta permite construções que não imaginava possíveis. Procurem online para encontrarem construções geniais. Não há palavras para descrever a criatividade de algumas pessoas. Pessoalmente limitei-me a ir fazendo edifícios práticos onde pudesse ir enfiando as coisas e tentando movimentar-me sem problemas. O jogo já não é bem optimizado, e curiosamente quando terraplanamos o solo torna tudo ainda mais complicado, o que transformou a minha pequena base num slideshow nas alturas más, 25 FPS nas alturas boas, tudo isso porque fui terraplanando em socalcos como as vinhas do Douro.

Também vamos desbloqueando sucessivos itens, receitas, upgrades consoante vamos descobrindo novos materiais. O processo é orgânico, não tens de andar a fazer testes para descobrir o que podes fazer, mal tenhas o material as novas opções aparecem na lista.

O mundo ser gigante complica um bocado, mesmo quando podes fazer portais para te deslocar. Isso facilita muito, mas há itens que não podem ser transportados nos portais, logo por azar um deles é o minério. O minério é essencial à nossa progressão o que me fez ter de mudar a base porque embora o mesmo bioma possa aparecer em múltiplos locais, no meu mundo nenhum dos biomas com um minério essencial ficou perto da minha base. Inicialmente não sabia que funcionava assim, logo tive de deslocalizar tudo. Vivendo e aprendendo.

Podes também mudar de mundo as vezes que quiseres. O que apanhares nesses mundos e trouxeres no inventário circula entre mundos sem qualquer limitação.

Onde está a mitologia, afinal?

Numa fase inicial não percebi bem porque raio é que diziam que o jogo era de Vikings. Sempre gostei de mitologia e embora a Nórdica e Anglo-Saxónica não seja aquela que melhor conheço, faltavam as referências. Isto podia ser um jogo de qualquer coisa, mas… pouco a pouco algumas coisas foram aparecendo.

Isto é um jogo de aventura, sozinho ou em co-op, por isso não deve ser fácil conciliar um mundo em que tudo entre, mas se tiveres atento encontra-las. Desde as múltiplas referências a Odin, o Rei dos Deuses, muitas vezes mencionado nas pedras rúnicas, algo que também o associa ao uso da escrita que, segundo a mitologia, foi ele o primeiro a obter conhecimento, o mundo ser constituído por múltiplas ilhas oferecendo-nos a possibilidade de navegar mas quando entramos no bioma do Oceano encontramos invariavelmente uma serpente marinha, curiosamente esta faz lembrar a serpente de Midgard, um dos 9 mundos da mitologia Nórdica, o que era habitado por humanos, rodeado por um oceano intransitável pois era vigiado por esta serpente. O próprio facto de na mitologia Nórdica existirem 9 mundos e que os devs de Valheim planearem que o jogo apresente 9 biomas após todas as actualizações é um detalhe que gostei bastante.

Uma simplicidade complexa.

Independente de ainda estar em acesso antecipado, Valheim apresenta conteúdo mais que suficiente para ser comprado e apreciado sozinho ou com amigos. Embora eu já seguisse o jogo anteriormente nunca na vida pensei que fosse tão bom, aliás estou mais que escaldado com jogos do género e olhando somente aos gráficos isto tinha tudo para correr mal.

Não correu. Para os amantes de jogos survival, de jogar com amigos ou simplesmente que gostem de viver uma boa aventura, têm aqui em Valheim o jogo ideal para jogarem e jogarem e jogarem. Ainda me falta tanto para explorar no meu mundo… já joguei tantas, mas tantas horas… A sério, comprem isto!

  • Lançamento: 2 de Fevereiro de 2021
  • Plataformas: PC
  • Desenvolvedor: Iron Gate
  • Editora: Coffee Stain Publishing
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Coffee Stain Publishing

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