2020 Jan 20 / 14:26

Análise: Blasphemous

Temos a tendência a priorizar os jogos que nos oferecem acima dos que queremos realmente jogar. Blasphemous andava-me debaixo de olho desde que saiu, mas na altura perdi o timing certo, foi ficando para trás, até agora. Tecnicamente muito bom, mas será que isso chega?

Blasphemous é um metroidvania com elementos de souls like e RPG. Se somares o pixel art entras no ramo do cliché dos jogos Indie nos últimos tempos. Há que ter algo especial para chamar a atenção, e para nos chamarem a atenção os jogos investem em algo diferente. Aqui foi o enquadramento. Um jogo carregado de simbologia cristã, como se vivêssemos num mundo pós apocalíptico em que a Inquisição Espanhola ganhou a guerra contra os pecadores.

Somos um guerreiro com um cone na cabeça, não faço ideia da simbologia disto, se alguma. Não me foi explicado. Acordamos numa pilha de corpos de guerreiros com a mesma característica, provavelmente todos da mesma equipa e a partir daí somos tratados como "O Penitente". Aparentemente todos sabem quem somos e o que procuramos, isto se te retirares da equação, pois não fazes puto de ideia do que estás a fazer.

Criaturas deformadas, estranhamente deformadas, morbidamente deformadas, que isoladamente não representam grande desafio, mas quando no conjunto certo… também não representam grande desafio. O desafio maior do jogo é mantermos a concentração quando este se torna mais repetitivo, quando empancamos numa secção de plataformas ou numa secção mais longa e repetitiva de lutas que gradualmente nos desgasta e nos aumenta o grau de aborrecimento geral.

Não me entendam mal, o jogo é tecnicamente competente, mas sofre da falta dum elemento que estenda o entusiasmo por mais tempo. Os elementos de RPG não diferenciam muito a maneira como lutas, ou melhor, a maneira como jogas o jogo, a exploração, embora te leve a encontrar algumas quests, está planeada de forma que por vezes já tens a solução da mesma antes da encontrares, ou te levam a um repetitivo deambular por uma sequencia de secções que já sabes de cor para chegares ao outro lado do mapa, até porque os pontos de fast travel ajudam pouco ou nada.

Por outro lado todo o enquadramento do jogo é magnífico, e os efeitos visuais e sonoros combinam na perfeição, algo muitas vezes descurado nestas produções mais pequenas. Também bastante positivo é a maneira despreocupada como nos incentivam a encarar a morte, que não nos prejudica muito a não ser que abusemos no número de mortes que temos sem recolher o nosso corpo. Aí a culpa começa a acumular, levando a que ganhemos menos dinheiro e não tenhamos tanto espaço para acumular stamina (ou mana, não sei bem o que lhe chamar) que nos permite executar um golpe especial, tão pouco importante que raramente me lembrava de o executar, preferindo mil vezes o hack’n slash habitual do jogo. Uma janela para parry muito generosa tornou essa acção bastante exequível, mesmo para um nabo como eu, que a partir de certo ponto a comecei a preferir à habitual carta de escapar da prisão, o movimento de dash, onde estamos invulneráveis.

Todos estes jogos acabam por ter elementos de plataformas, aqui são de longe o elemento secundário do jogo, ao mesmo tempo o mais desequilibrado, pois ou é demasiado simplista ou é dum preciosismo na execução que não dá mínima margem para erro, levando a que momentos dos mais frustrantes sejam esses, embora não seja nada que não se faça.

Os melhores momentos de luta são com os bosses, mas a componente de exploração aparentemente fez com que não os levasse por ordem, lutei consoante os fui descobrindo, e vi-me grego para acabar com o segundo, sendo os outros claramente mais fáceis de ultrapassar.

Aparentemente o jogo tem mais que um fim. Não me motiva minimamente voltar lá e jogar mais. Achei a história muito desorganizada, e embora agora saiba como a descobrir… já não quero. É tarde demais.

Então vale a pena jogar este jogo? Pessoalmente acho que lhe falta algo que o separe do resto do pelotão, mas se ainda não estão saturados do género de certeza que vão gostar do jogo. Tecnicamente há pouco a apontar, mas tornar-se muito repetitivo e pouco recompensador impede que brilhe de forma mais intensa.

  • Lançamento: 10 de Setembro de 2019
  • Plataformas: PC/Xbox One/Nintendo Switch/PS4
  • Desenvolvedor: The Game Kitchen
  • Editora: Team 17 Digital Ltd
  • Nota Pessoal: 7,5/10
  • Analisado na versão para PC