2020 Apr 21 / 12:00

Análise: Mount & Blade: Bannerlord

Acho que em nenhum outro jogo apanhei tantos bugs, exploits e glitches. Mount & Blade: Bannerlord está cravejado deles e a resolução de alguns faz aparecer outros. Isto torna o jogo péssimo? Não, mas impede seguramente que, mesmo em Acesso Antecipado, o jogo seja nota 10. Brilhante!

Por norma a minha hora sexy em cada jogo anda à volta das 15 horas jogadas. Nos jogos de grande estratégia, como é em parte Mount & Blade: Bannerlord consigo chegar às 35 horas de jogo sem grande esforço embora nessa fase, de forma geral, comece a ficar cansado duma campanha, tendo de começar outra com objectivos completamente diferentes, ou parar de jogar por completo. Estou agora com 100 horas de jogo em Bannerlord. Não quero parar. Simplesmente não quero. Apenas tenho que escrever a análise, a seguir volto para o jogo. Certamente vou esquecer-me de algumas coisas porque já estou aqui a pensar como com um batalhão de 235 unidades vou manter entretido um reino com 1200 unidades numa de 3 guerras em que o Reino do qual faço parte anda metido, mas na qual não parece estar muito interessado em lutar no momento.

 

Eu faço parte da franja de jogadores que não quer este jogo pela componente social, devo dizer que não joguei multijogador. A perspectiva de ser um no meio de imensos jogadores descoordenados numa batalha isolada não me motiva minimamente.

Iniciamos a campanha em Bannerlord com a criação de personagem. Imenso para escolher, mas pouco importante. Aprendam já algo, criem personagens altos, o facto de andarem mais rápido compensa sobejamente o facto de ficarem um bocado mais expostos. A seguir a esse ponto começa um dos problemas do jogo. A maior parte das coisas que nos atira não diz para que servem ou não diz como se atingem. Encarem isso como replay value. Temos que escolher aquilo que depois percebemos ser uma data de perks que nos irão acompanhar durante todo o jogo e vão moldar o nosso estilo de jogo. Algo que aconselho é que explorem isso ao iniciar uma campanha, e se não se encaixar na forma como querem jogar o jogo, mudem. Há duas maneiras de olhar para isto, ou procuram com estes perks desenvolver uma área que vão desenvolver menos durante o jogo, algo que permita compensar e ficar com uma personagem com vários pontos médios, ou investir tudo no que querem mesmo desenvolver, ficando puras bestas nessas skills. Ao calhas acabei por me deixar numa boa situação no que toca à troca de bens. No fundo fiquei um mercador. Compra aqui, vende ali. Foi uma boa casualidade pois no início do jogo será talvez a maneira mais fácil de ganhar dinheiro.

Ao começar somos atirados numa missão de treino onde de forma resumida nos ensinam a usar as armas, bloquear os golpes e montar no cavalo. O manuseio das armas carece de imeeeeeeeeenso treino. Quer os bloqueios quer o manuseio está ligado a um muito maniento sistema que reconhece o lado para onde vais mexendo o rato e inicia o teu golpe considerando isso. Contudo talvez metade das vezes o meu boneco não reconhecia esse meu movimento, o que acabava invariavelmente em asneira durante as confusas batalhas. Cada vez que tinha de usar a espada, talvez em 20% das vezes acertava em alguém do meu exército.

Após o treino dão-nos as primeiras missões que também funcionam um bocado como treino. A primeira missão a sério é falar com gente que não sabemos onde está sem recorrermos ao Youtube para saber como a encontrar. Creio que a completei às 60h de jogo…

O Youtube foi o meu companheiro preferido ao longo do jogo. Lançam-nos sozinhos num mapa relativamente cheio de locais. Até posso dizer que é um mapa bastante vivo, em que nos cruzamos constantemente com caravanas ou outros exércitos, todos nas suas vidas, todos com um propósito, raramente andam por andar.

Nesta fase inicial nós, um lorde de terceira categoria, andamos a criar reputação e ganhar dinheiro. A reputação pode ser ganha em missões que nos são dadas por aldeões, a combater com bandidos ou acabando com os seus esconderijos. No fundo estas missões são momentos de acompanhamento de alguma coisa, fetch quests ou auxílio num qualquer outro problema familiar. Notamos no início que são diversas, mas às 60h de jogo já não as podemos ver. Tornam-se repetitivas e até os diálogos são sempre os mesmos. Combater os bandidos também acaba por ser sempre o mesmo momento, mas serve para dar experiência às nossas unidades, pelo que o vamos sempre fazendo ao longo do jogo, maioritariamente com esse objectivo, e apenas se a situação se mostrar adequada. Já ganhar dinheiro liberta a nossa faceta de acumulador. Comprar, vender, repetir. Nem sempre o dinheiro vai abundar, numa fase inicial até vai ser curto, mas com o tempo até as trocas comerciais vais deixar de fazer. Vais ter caravanas, lojas, Castelos, cidades e vais lutar com exércitos cujos despojos de uma batalha te darão rendimentos talvez superiores aos que consegui nas primeiras 20h de jogo. Depois é somar. Em 100h de jogo nado em dinheiro. Ofereço subornos a toda a gente que posso. Subornos generosos também.

Andava nisto até ver um exército com um sinal a marcá-lo. Não sabia o que era aquilo. Era um lorde da missão inicial. Mal falei com ele acrescentou um na missão. Voltei ao Youtube. Aprendi aí que podia e devia ir à enciclopédia do jogo procurar informações sobre tudo o que o jogo tem. Uma dessas informações incluía o local onde as pessoas tinham sido vistas a última vez, mas o mapa é grande, já não estão lá quando chegamos, só temos nova informação quando chegam a outro local. Ninguém nos diz para onde foram. Também desisti de os procurar. Com o tempo foram aparecendo. Demorou, mas foi.

Nesta fase o Youtube já estava sempre aberto. Ajudou-me a fazer lojas, caravanas, encontrar companheiros, acabar missões, resolver bugs, aprender a mexer os batalhões durante as batalhas, … enfim. Repito isto para verem que o jogo é bastante pobre a ensinar as pessoas a jogar. Desenrasca-te, vale a pena!

Quando finalmente passo mais um bloco de missões torno-me Bannerlord. Tenho de me juntar a uma facção, lutar contra a outra. Não é uma luta de bem contra o mal, eu acabei por escolher o Reino com a cor que achei mais bonita. Sou assim mesmo, uma pessoa de princípios claros.

Neste momento aparece uma missão que diz que a outra facção congemina contra mim, e pouco depois outra a dizer que eu posso lutar contra isso, só que não me diz como o fazer. A outra facção é representada com uma personagem com a qual posso falar. Vou lá falar com ela na boa, não surge qualquer opção de falar com ela sobre isso. Entretanto já eliminei essa facção há talvez uma dezena de horas, continua a aparecer lá essa missão a dizer que ela vai fazer algo contra mim. Não sei se é um bug e essa missão, que já aparecia antes de acabar com a facção dela, está desenhada para ser mesmo assim, ou é um bug qualquer do jogo e deveria ter desaparecido.

Em termos estratégicos tenho que admitir que a IA é aceitável. Muitas vezes não percebia o que os levava a atacar um local em detrimento doutro, ou porque não defendiam cidades chave em determinadas regiões. Muitas vezes declaravam guerras com Reinos a meio de guerras com mais um ou dois. Mais tarde aprendi no Youtube que os vassalos podiam iniciar guerras se eles lutassem contra alguém desse Reino em tempo de paz. A partir daí dei o desconto. Funciona muito como funcionava na vida real. As famílias têm os seus interesses pessoais, e muitas vezes não são os mesmos do Reino a que pertencem.

Algumas famílias podem ser subornadas a mudar de Reino, ou quando um Reino é derrotado dividem-se pelos outros consoante os seus interesses. A certo ponto há nobres por toda a parte, porque nos podemos casar, ter filhos, etc. Há nobres a pontapé, cada um com o seu exército. A IA não parece fazer trocas comerciais, ou mesmo vender os espólios das batalhas, pelo que a sua fonte de rendimento são os Castelos e cidades. Depois de conquistados esses locais são distribuídos entre os nobres por votação na qual podemos participar se tivermos influência suficiente. Inicialmente não percebi como eram atribuídos, mas aparentemente o Rei tenta equilibrar as propriedades entre as famílias para que todas tenham uma fonte de rendimento para sustentar os exércitos. Quando derrotamos completamente um Reino as famílias juntam-se a outras facções, e muito logicamente não optam por quem os derrotou. Olhando a todos os Reinos cada um deles parece ter um número equilibrado de guerras, mas o facto de nós, utilizador humano, como unidade sermos claramente mais organizados a nível estratégico ajuda bastante a nossa facção. Normalmente uma guerra entre a IA termina de forma equilibrada. Algum pode momentaneamente sobrepor-se a outro e ganhar mais um ou outro território, mas a única facção que parece de forma consistente capaz de ganhar e manter território é aquela a que pertencemos. Ora, se muito lentamente começamos a ganhar a guerra, e os outros Reinos vão gradualmente ficando mais apinhados de famílias que não sabem como fazer dinheiro, isto significa que cada vez existem mais exércitos e menos dinheiro para os manter. Ao contrário o nosso Reino tem proporcionalmente menos famílias e muito mais dinheiro entre elas. Consoante o dinheiro dos inimigos vai escoando começamos a ver exércitos mais pequenos, mas em muuuuuuuuito maior quantidade. Por vezes estamos sozinhos com o nosso exército de 200 unidades, grande em praticamente todas as circunstâncias, mas acabamos a lutar contra 20 exércitos que no total representam a nossa morte. Somos capturados, andamos com eles, somos atirados para uma masmorra e temos de recomeçar a criar o batalhão. Não é do zero porque temos uns milhões no banco. Não se preocupem, faz parte.

Isto torna é a fase final dos jogos muito complicada, pois estes grupos extremamente móveis aparecem de surpresa e não nos deixam fugir. Para piorar isso, o nosso Reino, com muito menos exército, não consegue estar em todo o lado ao mesmo tempo e não prioriza, divide-se pelas diversas frentes de batalha em vez de eliminar um Reino enfraquecido e fechar aí uma frente.

Isto é o genérico do jogo.

O jogo mistura uma versão de mapa vista de cima misturado com batalhas em tempo real. Podes usar o auto-resolve das batalhas, que funciona bastante bem, mas sempre com mais mortes no nosso exército que se o controlássemos manualmente. Se a meio do jogo isto nos deixa poupar muito tempo, na parte final não nos podemos dar ao luxo de perder tantas unidades e acabamos a participar em quase todas as batalhas.

Controlamos o nosso personagem como sendo general do nosso exército e podemos jogar em primeira ou terceira pessoa. Não é comum, mas preferi jogar em terceira pessoa. É um pouco o sistema que vimos na franquia Total War, mas sem o movimento no mapa estar associado a um sistema “por áreas”. Tenho que dizer que resulta bastante melhor.

As batalhas em si estão bastante bem desenhadas. Funcionam no sistema de pedra-papel-tesoura, o sistema já habitual, e a inteligência artificial está bem desenhada. A cavalaria flanqueia e tenta atacar os arqueiros, os arqueiros procuram terrenos mais altos ou um bom ângulo para disparar mantendo-se afastados da confusão, de vez em quando há batalhões que nos fazem uma emboscada.

Podemos estruturar os nossos batalhões para além da forma como o jogo automaticamente os organiza. Aprendi isso muito mais tarde no Youtube, e a partir daí comecei a separar os pikeman” da infantaria com espada para poderem proteger os arqueiros da cavalaria inimiga.

Mesmo assim não é complexo ganhar as batalhas se as jogares mesmo, porque as unidades vão evoluindo e eu noto que as nossas evoluem bastante mais. Possivelmente o dinheiro em abundância ajudou muito, porque pude sempre repor unidades caídas de forma muito rápida, fazendo com que o meu exército evoluísse constantemente. Na fase final do jogo tinha um exército de 235 unidades que facilmente ganhava a 500, já que possuía tropas endurecidas pelo tempo a lutar contra camponeses, saqueadores ou unidades de baixo nível. No fundo é o efeito bola de neve.

As batalhas em campo aberto são geralmente isentas de erros. Esporadicamente vimos unidades presas no terreno, e a cavalaria tem a tendência de se meter na confusão e ficar presa no meio de muita gente. Isto acontece quando temos uma ou duas unidades, consoante vamos tendo mais percebemos que é um movimento arrasador de carga, mas eles não percebem que quando estão sozinhos não é eficaz.

O pior são os cercos. Aí encontrei imensos erros, alguns muito castradores no resultado final de uma batalha. Uma vez uma pessoa recusou-se a subir a escada, ficando a meio. Todos ficaram atrás dele sem dar para subir. As tropas do castelo juntaram-se todas na outra escada ao lado onde foram dando cabo das minhas unidades uma a uma. Do outro lado mais duas escadas, mas todos ficaram a olhar para elas sem saber o que fazer. O mecanismo de detecção de obstáculos e inimigos é ainda um pouco pobre. Muitas vezes as unidades ficavam a correr contra as paredes dum castelo, ou detectavam os últimos inimigos numa determinada direcção e, se estivesse num espaço fechado como uma torre, ficavam todos a correr contra o canto da parede dessa sala. Também tenho dificuldade em perceber como a IA escolhe o meio para entrar no castelo, muitas vezes ignorando a porta aberta. Foi no ataque aos castelos e cidades que tive os meus momentos mais difíceis. Primeiro porque a vantagem de quem defende é notória, sente-se bem isso, e porque não temos a certeza se as nossas unidades vão fazer o que é suposto ou ficar presas a pensar se querem mesmo lutar.

Este RPG de estratégia permite imensas possibilidades de jogo. É um mundo. É daqueles jogos que decidimos ir do ponto A ao ponto B mas pelo meio descobrimos tanta coisa que queremos fazer que por vezes até nos esquecemos que o que queremos mesmo é ir para o ponto B. Na prática joguei isto como sandbox e é assim que o imagino. Fazer a minha história. Múltiplas histórias. Vou já fazer outra mal acabe de escrever esta análise. O jogo tem muitos problemas pequenos que acumulam. A maioria é apenas engraçada, apanhei alguns crashes e, pior que isso, alguns loops que me estragaram saves. Não esqueçam que o jogo está em acesso antecipado, e os dev estão numa fúria constante para resolver estes problemas, com actualizações quase diárias. Há certamente muitas coisas a mudar. Ensinarem-te pouco leva sempre a que tenhas muito para descobrir, por isso este é um jogo que só podes jogar à tua maneira. Na minha maneira de jogar é um jogo incrível que recomendo a todos os amantes dos jogos de grande estratégia.

  • Lançamento: 30 de Março de 2020
  • Plataformas: PC
  • Desenvolvedor: TaleWorlds Entertainment
  • Editora: TaleWorlds Entertainment
  • Nota Pessoal: 8,5/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por TaleWorlds Entertainment