2020 May 06 / 17:13

Análise: Gears Tactics

Gradualmente a minha percepção da franquia Gears está a mudar, curiosamente a partir de jogos que não esperava. A minha experiência nos jogos de estratégia por turnos tipo X-COM resume-se ao Mutant Year Zero: Road to Eden e a um par de horas no X-COM original, sem que nunca o género me conseguisse agarrar ou ficar à espera duma sequela com ansiedade. Bem, Gears Tactics tirou-me do vício do Bannerlord, deixou-me a pensar no jogo depois de desligar o computador e, duma forma geral, foi uma grande surpresa.

Agora que penso, a franquia Gears quase que gritava por uma adaptação destas. Cover shooter, active reload, cinemática de morte, cenários onde invariavelmente nos encontramos numa posição desfavorável e em completa e desproporcional desvantagem numérica. Parece lógico e óbvio, não parece? Pois, parece sim, mas o que agora é óbvio não foi imaginado por ninguém excepto os estúdios The Coalition que em conjunto com o Splash Damage fizeram este spin-off cheio de personalidade.

Este jogo é uma prequela de Gears of War e a história começa bastante bem, começando gradualmente a entrar no genérico. As personagens são sólidas mas uns furos abaixo do que vimos em Gears 5, por exemplo.

Visualmente imaculado, parece continuar a procurar a atenção ao detalhe que vi em Gears 5. Com a excepção pontual dum plano ou outro, todo o mundo é bastante detalhado, extremamente bem feito. Os personagens estão imaculados a nível gráfico. Impressionante.

Ao começar a jogar notei de imediato a ausência da habitual grelha para onde mover os bonecos. Inicialmente parecia uma má decisão, mas rapidamente percebemos a ideia de liberdade. Podemos ficar em qualquer lugar e é relativamente simples percebermos até onde podemos ir. É até possível usar essa mecânica a nosso favor, pois torna um pouco mais flexível a distância que podemos percorrer, dado que o mecanismo de cobertura aparenta dar uma forcinha extra na movimentação dos personagens.

Podia estar aqui uma tarde a falar da componente estratégica do jogo, irão sempre pensar que é apenas mais um clone, mas não me parece. Cada classe tem um conjunto de skills e uma skill tree que pode transformar cada personagem em alguém único e estrategicamente importante. Podemos chegar ao ponto de criar personagens especificamente para jogar com determinadas sinergias. Sou pouco experiente no género, e obviamente comecei a jogar no espírito de cada um por si, mas rapidamente percebi que o segredo deste jogo é essencialmente o jogo de equipa.

Há duas mecânicas que gostei bastante no jogo. O modo Overwatch em que cada personagem pode ficar a vigiar um ângulo, e se um inimigo cruzar esse ângulo é imediatamente atingido, outra das mecânicas implica que um dos inimigos não morra, mas fique apenas perto de morrer. Nesse ponto ele já não fará mais nada, mas tens essa ronda e a próxima para o matares num golpe corpo a corpo. A maior parte das vezes essa acção deixa-te exposto, mas para compensar permite que cada outro elemento da tua equipa ganhe mais uma acção nesse turno.

Esqueci-me de falar das acções, não foi? Parece tão simples que acabamos por nem o fazer. Temos três acções por turno, embora haja alguns buffs ou perks que nos dão a chance de mudar isso. Essas acções podem incluir disparar, mover, recarregar, entre outros.

Muito bem, já falei de forma genérica de tudo. Vamos lá então ao jogo de equipa.

Ao longo do jogo vais desbloqueando múltiplas habilidades na skill tree, essas habilidades tornam os teus personagens únicos, mas por vezes necessitam de alguma ajuda para funcionarem na perfeição. Posso dar um exemplo, para terem a noção. Há uma habilidade numa das classes que permite que a arma recarregue se o inimigo morrer nesse tiro. Por vezes o melhor não é disparar logo, mas trocar para um colega para que ele dispare a primeira ronda para garantirmos que o nosso tiro mata o adversário e garante o recarregar da arma, poupando assim uma acção. Junta isso a uma equipa de 4 elementos, imensos inimigos para matar e a mecânica ganhar uma acção por cada morte a inimigos a definhar, cada turno pode ter um ganho enorme de acções se jogarmos em condições. É uma diferença como da noite para o dia, em níveis mais avançados será a diferença entre concluíres uma missão ou não.

Em todas as vezes vais estar numa desvantagem numérica gigante e a maior parte das vezes não gosto de jogos que nos tentem derrotar pela força dos números, mas sim pela inteligência das suas unidades. Aqui é diferente. As unidades não são apenas seres acéfalos que carregam na tua direcção sempre em frente, indo de caras contra as tuas balas. O segredo deste jogo foi darem a estes números um significado. Os inimigos procuram sempre flanquear-nos, e a maneira despreocupada com que encarei o primeiro par de missões desapareceu de imediato. Com o avançar do jogo vais ter de enfrentar unidades mais poderosas, com armais mais poderosas. Vão exigir mais de ti, mas de forma justa. Também dá para apanhares as armas dessas unidades especiais, sendo a experiência de jogar com elas muito recompensadora. Essa mecânica também existe no Gears “original” e foi um detalhe muito bem conseguido neste jogo.

As batalhas contra bosses são sempre um momento à parte. Estás a lutar contra um bicho mega poderoso, mais uma vez com movimentos muito previsíveis. Isso é bastante positivo pois permite que planeies as tuas acções com alguma antecipação.

A mecânica de Overwatch parece-me bastante poderosa, dado que parecemos não falhar tiros com ela. Muitas vezes preferi deixar os meus bonecos a vigiar outro que arriscar um tiro e falhar.

A inteligência artificial parece ser da mesma opinião e adoram esse modo. Múltiplas vezes vemo-nos debaixo de múltiplas vigilâncias, e nem sempre vai ser possível sair delas sem levar com alguns tiros no bucho, terás de saber optar pelo mal menor.

O jogo tem imensas missões secundárias, mas obriga-te a fazê-las para que a história avance. Não gostei da mecânica, pois embora estejam muito bem feitas e sejam sempre um desafio estratégico, são repetitivas e uma maneira forçada de acrescentar tempo ao jogo sem necessariamente acrescentarem valor.

Não sei até que ponto há replay value aqui. Certo que podes escolher habilidades diferentes de cada vez que jogas, mas não sei se isso é suficiente. Tens as cerca de 30/40h de jogo e provavelmente a opção de o repetir noutra dificuldade para aumentar o desafio. Vai um pouco de cada um, mas eu provavelmente irei arrumar o jogo por agora.

 

Assim encontrei aqui um jogo caído do nada. Parece que ninguém falou dele. Que injustiça gigantesca. O jogo está bastante bem feito, e em diversos momentos parece um dos melhores jogos da franquia. Entrei nele de pé atrás. Não gosto deste tipo de jogo de estratégia, não gosto de jogos onde nos tentam ganhar pelos números, não sou o maior fã da franquia Gears… ou seja, Gears Tactics não tem nada do que costumo gostar. Adoro-o!

  • Lançamento: 28 de Abril de 2020
  • Plataformas: PC
  • Desenvolvedor: The Coalition, Splash Damage
  • Editora: Xbox Game Studios
  • Nota Pessoal: 8/10