2020 May 18 / 15:42

Análise: Animal Crossing: New Horizons

Pode um jogo ser brilhante e irritante ao mesmo tempo? Claro que pode. Animal Crossing: New Horizons é a prova viva disso, e provavelmente a minha consola só não foi atirada contra a parede algumas vezes porque não conseguia parar de o jogar.

Esta pandemia parece que veio na altura perfeita para se jogar este jogo. Calmo, tranquilo, relaxante, mas por outro lado dinâmico, motivador e carregado de grind. É esta díade que dá um charme único a este título exclusivo da Nintendo.

Devo começar por dizer que não fiz qualquer tipo de batota a jogar. Joguei à homem. Esperei quando tinha de esperar, juntei dinheiro sem necessitar de andar com dias para trás e para a frente.

Quando comprei o jogo estava curioso em saber como é que os seus criadores me iriam motivar a fazer sempre as mesmas tarefas dias e dias a fio, mas tenho que admitir que nesse ponto o jogo é genial. Todo o dia tens um objectivo. Trabalhas em prol duma ideia, duma construção, dum amigo, dum projecto. Por norma sempre algo novo. Assim te agarram nas primeiras duas semanas e aí estás investido e interessado no jogo para criares a tua história, fazeres a tua própria ilha, viveres a tua aventura.

 

O jogo vive também muito disso, criares algo teu. Há um pouco de jogo para qualquer pessoa. Há para acumuladores como eu, há para designers como outros, há para exploradores, há para quem quer fazer amigos.

A verdade é que a sensação de tycoon está sempre presente no jogo. Seja em Bells, a moeda do jogo, em Nook Miles, a moeda que serve como recompensa por realizares certas acções, seja em itens, amigos, projectos…

É um vício, não consigo explicar doutra forma. Até a minha esposa, que não jogava um videojogo desde 1989 quis experimentar, só para que eu percebesse que não tinha direito à sua própria ilha. É parvo só termos acesso a uma ilha por consola, tanto que inocentemente pensei que estivesse a fazer algo errado. Não estava e agora tenho um mamarracho logo à entrada da ilha que ninguém usa e não sei como remover.

Infelizmente isto não acaba aqui. Nunca pensei que em 2020 um mundo aberto não desse para rodar a porcaria duma câmara, o que faz com que qualquer objecto que caia atrás duma casa ou árvore fique escondido nos anais do tempo até que a sorte nos faça apanhá-lo. Ou isso ou a tentativa e erro. Sugeria que falassem com a Nintendo e lhes perguntassem como fizeram com o Mario Odyssey ou com o Zelda Breath of the Wild, pode ser que lhe vendam essa tecnologia nova. Rodar a câmara…

Múltiplas vezes me perguntei porque iniciei tanta reformulação da ilha. Cada vez que o fazia era uma dor de cabeça abismal. É preciso uma boa dose de paciência ou sorte para 50% das vezes (fora o exagero) não cavar ou colocar um item fora do local pretendido. Por vezes imagino que dava um jeitão ter uma tecnologia nova que iluminasse a zona que vamos atingir, ou nos mostrasse uma grelha para sabermos onde estamos ou para onde estamos a apontar. We can only dream.

Os utensílios são parte fundamental de todo o jogo, contudo partem-se a cada 30 utilizações, isto os melhorzinhos, porque numa fase inicial são muito menos vezes que os podemos usar antes de se partirem. E quão bom seria se pudéssemos fazer uma data de utensílios ao mesmo tempo? Não dá. Temos que fazer um de cada vez. E dá-te por feliz se tiveres todos os ingredientes contigo, porque se não tiveres tens de sair do tronco da árvore onde os estás a fazer, abrir a caixa que está mesmo ao lado, voltares a ir ao tronco, voltares a ter a mesma animação, fazer o projecto. Queres dois iguais? Repete. Acrescentar a quantidade nos diálogos? Muito complexo. Fazer com que em nossa casa tenhamos automaticamente acesso a todos os nossos itens? Uii, bruxaria!

Nunca me chateei com as vezes que apanhava o mesmo peixe, as vezes que apanhava a mesma fruta, as vezes que apanhava o mesmo insecto, as vezes que regava a mesma flor. Nisso o jogo é fantástico a motivar-me. Vou sempre fazer essas tarefas com um sorriso na cara. Quem me conhece está agora de boca aberta… a bater no chão. Ignoro sempre estas tarefas em qualquer jogo. As repetições que me aborrecem são as das animações e dos diálogos. Sempre a mesma animação para cada animal apanhado, sempre o mesmo diálogo para item doado, vendido, págo. A mesma conversa com visitantes da ilha… horas perdidas com estes diálogos inúteis e repetitivos, com estas animações aborrecidas depois das primeiras 1000, com as mesmas piadas secas que têm piada 1 ou 2 ou mesmo 10 vezes, mas que à centésima já nos fazem doer o cabelo.

E acreditem que estou longe de relatar todos os aborrecimentos parvos que o jogo tem. A economia actual está baseada em nabos. NABOS! Um vegetal que compras e deixas lá esquecido até que haja um bom preço a que to comprem. E como diz esse enorme poeta Leonel Nunes, se tem talo a couve…

Não posso dizer que os devs não ouvem a comunidade. São rápidos a corrigir exploits. No entanto parece que o aborrecido é para ficar. Não entendo.

Há duas semanas disse aos meus colegas de redacção que pensava que este jogo ia levar o meu primeiro 10. Hoje penso que este jogo foi bafejado pelas circunstâncias. Provavelmente teria essa nota se o tivesse jogado quando saiu e estava confinado a casa carregadinho de Covid e com um prazo para apresentar a análise. Agora que joguei com calma fui a tempo de passar a fase do namoro. Foi o completo inverso do Bannerlord. Aqui o meu amor ao jogo foi diminuindo de dia para dia. Acredito que existiu a tempestade perfeita… para o bem. Na verdade, o jogo é híper mega viciante, vale cada cêntimo múltiplas vezes. Para ser ainda mais sincero estou a apressar esta análise transformada em rant porque o quero ir jogar a seguir. No fundo eu sei que o jogo é brilhante, mas de forma ainda mais honesta não posso deixar escapar tanto problema que parece ter escapado a toda a gente. Como se dizia quando eu era mais novo “só tu é que estás bem!”

  • Lançamento: 20 de Março de 2020
  • Plataformas: Nintendo Switch
  • Desenvolvedor: Nintendo
  • Editora: Nintendo
  • Nota Pessoal: 8/10