2018 Mar 30 / 10:00

Review - Sea of Thieves

Análise baseada na versão do jogo para PC.

 

Olho agora para o artigo em branco a tentar perceber por onde começar esta análise e só consigo pensar no quão árdua e monótona é a tarefa de jogar Sea of Thieves, mas não seria a vida de pirata árdua e monótona, pontilhada de alguns momentos de entusiasmantes confrontos? Muito provavelmente, contudo não imagino os piratas sentadinhos ao PC com uma mantinha nas pernas e um aquecedor ao lado.

Sea of Thieves é um jogo que tenta representar a vida de pirata. Jogamos em primeira pessoa num mundo aberto de dimensões médias. A nossa missão é fazer o que quisermos, ou em alternativa completar as missões que nos são dadas pelas três diferentes facções existentes no jogo:

  • Gold Hoarders: que nos dão mapas para procurarmos tesouros;
  • Order of Souls: que nos mandam voltar a matar piratas mortos (é mesmo assim, a culpa não é minha);
  • Merchant Alliance: que nos manda fazer essa tarefa tão associada à pirataria que é apanhar galinhas e porcos.

Conforme vamos fazendo missões vamos subindo a nossa reputação dentro de cada uma das facções e recebendo recompensas monetárias com as quais podemos comprar duas novas armas e itens cosméticos. De forma resumida, ou não, é esta a história do jogo.

Este é talvez o jogo graficamente mais bonito e interessante que joguei nos últimos tempos. Olho para o jogo e é muito mais bonito e realista que qualquer desenho animado que exista no momento. O mar está tão bem representado que é virtualmente impossível descrevê-lo por palavras. As personagens são vivas, distintas e com detalhes deliciosos como mastigarem a comida enquanto comem. As embarcações remetem para as imagens dos descobrimentos que todos vimos na escola e sempre que são danificadas o dano é perceptível, especialmente da parte de fora, e até nisso houve atenção pois se uma bala de canhão atingir o navio no convés a água não entra no barco, pois o dano é acima da linha da água. Os NPC são também extremamente polidos, desde os vendedores aos animais, e mesmo os esqueletos têm propriedades distintas entre alguns dos grupos, embora a grande maioria seja similar entre si. As paisagens e vegetação são lindos de morrer, mas esgotam-se facilmente pois após algum tempo tornam-se repetitivas. O tom geral das ilhas é similar. Claro que são diferentes entre elas, mas no fundo acabamos por ficar sempre com a sensação que não vale a pena procurar algo diferente se não estiver incluído numa tarefa.

Há pouca música de fundo no jogo, mas tens de base instrumentos musicais com que podes tocar uma data delas. Percebi imediatamente a ideia da Rare, dar ao jogador a opção de escolher se quer ter música a rolar ou não, contudo por gosto pessoal prefiro música de fundo que alguém a correr à minha volta com um harmónio a tocar diferentes músicas. É importante dizer que todas as músicas presentes remetem para pirataria e são óptimas escolhas para integrarem a banda sonora do jogo. Os sons ambiente estão bem caracterizados. O mar continua sublime, quase ao ponto de eu dizer que o grosso do investimento deste jogo foi mesmo aí... no mar. Qualquer animal ou esqueleto produz um som e todos eles estão bem feitos. Os canhões, pistolas e espadas também se encontram representados num plano muito bom. Quando somos atingidos por balas de canhão há um som característico que ouvimos no barco, sendo esse diferente do som que ouvimos quando a embarcação bate na terra ou rochas, não houve a tentação de usar o mesmo som genérico para tudo. Mais uma vez a importância do detalhe.

Admito que aguardava ansiosamente pelo jogo a seguir aos sucessivos Beta que fui jogando, e talvez isso seja parte do meu problema. Muito raramente aguardo por um jogo. Por norma ele sai e eu compro-o um ou dois anos depois por uma fracção do preço, mas agora com o Game Pass podia jogá-lo desde o primeiro dia e provavelmente entusiasmei-me mais do que deveria. E isso é negativo? Sim, porque não entramos no jogo de mente aberta, esperamos por algo que, muito sinceramente, não nos foi prometido estamos apenas a confabular situações na nossa mente que em nenhum lado vimos acontecer. Vamos então ao jogo.

Entrar no navio com mais três estarolas é uma situação extremamente divertida. Alguém propõe uma viagem, há sempre um que quer ir para o leme, os outros controlam velas e âncora ou auscultam o horizonte para procurar embarcações inimigas. Nas primeiras viagens todos cantam, dançam e fazem barulhos que serão provavelmente um híbrido entre os Piratas das Caraíbas e um orangotango com dor de dentes, mas resulta tudo bastante bem. Fazemos umas missões, ganhamos dinheiro, repetimos. Compramos os primeiros itens cosméticos e passeamos como pavões ao lado dos outros elementos da tripulação. Compramos itens iguais porque vamos ser uma tripulação, mesmo sabendo que não nos vamos voltar a encontrar depois de fazermos logout.  Não podemos sair sem irmos atacar outro navio. Procuramos durante uns 5 ou 6 minutos e lá o encontramos, gastamos mais 2 ou 3 a aproximarmo-nos um do outro, mais um bocado de tempo até começarmos a perceber para onde apontar os canhões e começa o bombardeamento. Perdemos o primeiro confronto, mas não há problema o respawn é rápido e ainda voltamos com o barco à superfície, embora demasiado tarde para o salvarmos. Mal o barco afunda aparece uma sereia que nos leva para a embarcação seguinte e assim fazemos. Um barco completamente novo e abastecido de materiais. Voltamos. Desta vez ganhámos, o adversário já não tinha pranchas para reparar o navio. Descobrimos que não tinha qualquer tesouro, só 2 gaiolas vazias. Provavelmente iam apanhar galinhas... bem, não faz mal foi muito divertido. Ainda fomos a tempo de matar a tripulação do outro barco a tiro, e assim eles não foram para o novo barco através da sereia, fizeram lá o respawn directo. Depois fomos tentar ganhar as múltiplas hordas de esqueletos para conquistar uma das ilhas onde se luta contra os NPC para ganhármos mais dinheiro, mas acabámos por desistir a meio, pois já estávamos naquilo há meia hora e... aborrecemo-nos.

Todos queriam ver o Kraken. Não o encontrámos. Vi-o eu posteriormente enquanto jogava a solo, embora não me tenha chegado muito perto. Ele estava entretido com um galeão e eu deixei-o ficar. Não queria ir lá acabar com ele e estragar a diversão à outra tripulação toda. Foi algo decepcionante. Só se viam os tentáculos e ao invés de me sentir impelido a ir lá derrotá-lo só pensei que aquilo devia dar um bom polvo à lagareiro.

E foi mais ou menos nesta fase que me apercebi que andava sempre a fazer o mesmo. Se não aparece um novato numa tripulação raramente há algum entusiasmo. Limitamo-nos a fazer as missões ou a afundar um barco que não tem absolutamente nenhum loot, não há recompensa por ganharmos o PvP, nem desvantagem de o perder... andamos a fazer sempre o mesmo e percebemos que o jogo não passa duma árdua e monótona sucessão de tarefas para cuja recompensa rapidamente deixamos de ter uso. É compreensível que a Rare queira manter o jogo num plano igual para todos os jogadores, que se fosse criar uma skill tree os jogadores mais antigos iriam dominar os novatos e como o jogo se apresenta os mais velhos vão ajudando os mais novos no jogo. São duas abordagens diferentes, mas creio que as pessoas agora querem progressão e sentir-se mais fortes que os outros, querem sentir que estão a ser recompensados pelo tempo investido. Não é uma roupita ou um novo casco para o navio que irá fazer essa diferença.

E assim chegamos a este ponto. O que posso dizer do replay value do jogo? O próprio jogo é um replay value constante, vivemos num loop interminável à espera de sermos uma lenda. Talvez seja essa a recompensa e valha a pena, mas para já estou aborrecido e só vou jogando a espaços, uma ou duas missões de cada vez. Aborreço-me, saio e volto a vir quando regressa a vontade. O jogo dura o que quiseres, até quando quiseres.

E a que conclusão cheguei eu? Chego a um ponto de amor-decepção. Se repararem praticamente só tive coisas boas a falar do jogo até chegar ao gameplay em si. Até aí tudo me impressionou, sendo assim é seguro dizer que o esqueleto, a base de todo o jogo está lá e é de qualidade superlativa, mas há puco conteúdo para segurar esta base. Agora há dois caminhos, ou o jogo trabalha sobre esta magnífica base e introduz o conteúdo para fazer deste jogo uma excelente proposta, ou decide que este é o produto final e fica-se por aqui. Neste estado é como uma linda garrafa de cristal que dentro tem somente vinho carrascão. Querendo ser optimista, é muito mais fácil adicionar conteúdo que trabalhar em toda a base. Vamos torcer pelo melhor, que da forma que está não temos aqui nada de especial.

 

  • Lançamento: 20 Março 2018
  • Plataformas: PC/XBox One
  • Desenvolvedor: Rare Lda
  • Editora: Microsoft Studios
  • Nota Pessoal: 6/10