2018 Jul 22 / 19:05

A Overwatch League

Com as finais a chegar,  achei engraçado pegar no Overwatch e fazer um artigo sobre tanto o jogo como a Liga. Se estiverem a ler isto na altura certa, o artigo sobre o jogo saiu muito recentemente, e agora vem o follow-up da Overwatch League!

O que é?

OWL é uma liga profissional criada e gerida pela Blizzard especificamente para o Overwatch que segue o formato tradicional de ligas americanas. Isto quer dizer que, ao contrário de ligas como a Primeira Liga (de futebol português), não usam um sistema de promoção e despromoção mas sim um número de equipas fixas apoiadas por entidades maiores que as equipas, sendo estas 12.

O apoio referido às equipas é dado, por norma, por outras organizações de esports que detêm estas equipas na OWL como um sistema de franchise, só que aqui todas as equipas representam uma cidade. Exemplos disto são os OpTic Gaming, com os Houston Outlaws, os Cloud9 com os London Spitfire e ainda os NRG com os San Francisco Shock. No entanto, equipas como os Boston Uprising têm como superior os Kraft Group, donos dos New England Patriots, uma equipa de futebol americano. É ainda feita uma divisão (Atlântica/Pacífica) baseado na região em que a empresa-mãe se situa.


A semelhança a ligas tradicionais americanas é muito clara

O formato que a Blizzard usa para a Liga é algo incomum nos esports, usando um sistema de divisão em stages, estes subdivididos em semanas e, consequentemente, dias. Na sua temporada inaugural, houve 4 stages de 5 semanas (jogados entre quarta e sábado), cada um seguido por um intervalo de 10 dias. Com isto tudo contabilizado, há cerca de 40 jogos realizados por equipa, 20 por divisão.

Para subir ainda mais o escalão de competitividade, no fim de cada stage há uma fase de playoffs que determinam o derradeiro vencedor desse stage. No fim da fase de Liga as equipas recebem ainda um pagamento tendo em conta a sua posição na tabela

Depois, temos as finais, ou post-season, onde a melhor equipa de cada divisão ao longo da fase de Liga é automaticamente colocada nas semi-finais, nesta temporada os Los Angeles Valiant e os New York Excelsior. As próximas quatro equipas, no geral e na classificação de Liga, são colocadas nos quartos-de-final e terão de lutar mais para o prémio de 1,000,000$.

Cada série é feita em cada BO3, sendo que um ponto nesta série equivale a um BO5 em mapas. De relembrar que, após os jogos dos quartos-de-final estarem feitos, as brackets são reseeded de acordo com a pontuação da temporada de Liga e só a partir daí é que se prossegue com as Finais.

O sucesso da OWL

Vamos começar com números. Mais especificamente, dinheiro. A quantidade de dinheiro que uma Liga distribuiu em 6 meses consegue ser superior ao que a Valve e os organizadores de Majors de CS:GO distribuem por ano desde 2016. Vamos aprofundar.

Desde 2016 que o formato de Majors em CS:GO mudou de 3 por ano para 2, ou seja, menos oportunidades mas mais dinheiro (nesta altura o prémio de cada um destes torneios subiu de 250,000$ para 1,000,000$). Ou seja, apenas em Majors, 'apenas' foram distribuídos 5 milhões de dólares, com o sexto milhão a chegar em setembro. Seis milhões. A OWL, quando acabar a temporada inaugural, já terá distribuído 3,500,000$. Três milhões e meio, em 6 meses. Mais de metade que a Valve ajudou e ajuda a oferecer em 3 anos.


Cada equipa tem o seu conjunto de skins dentro do jogo

Vamos passar para outro tema, ainda envolvido com dinheiro: os salários. Com o crescimento dos esports novos regulamentos são formados e a OWL está na fronteira disso - obrigando salários mínimo e contratos. O salário mínimo anual da OWL (repito - mínimo) é de 50,000$. Por mês, cada jogador na OWL recebe um mínimo de cerca de 4,150$, ou 3,560€.

Agora vamos virar a página e falar dos patrocínios que Nate Nanzer - o comissário da Liga - e a sua equipa montaram. Começamos, logo no começo da primeira temporada, com a Intel e HP. Estas, em contratos multianuais ofereceriam processadores e computadores, respetivamente, em troca de divulgação em stream, à semelhança da Toyota, que chegou mais tarde. A empresa automobilística dá apoio direto à Liga e ainda concursos para os seguidores da liga, também em troca de divulgação.

Agora, Intel e HP são patrocínios comuns a nível de esports por fabricarem hardware software, agora uma marca de carros é algo diferente. Não inédito, sendo que a estreia do automobilismo nos esports foi entre a Mercedes e a divisão de DotA2 da ESL, mas continua a ser algo raremente visto. Em Portugal, foi apenas observado com a MLP durante pouco tempo.

A Blizzard conseguiu ainda adquirir e desenvolver um espaço em Los Angeles (Blizzard Arena) especificamente para o propósito da Liga. Agora, estão a chegar as finais em Nova Iorque, no Barclays Center com uma capacidade além de 15,000 pessoas.

A nível pessoal, acho que alguns dos fatores determinantes são o aspeto de franchise que não temos em outras ligas de esports, tirando o franchise em que se tornou a NA LCS, o formato incomum mas que permite um acompanhamento mais fácil, obviamente o dinheiro que trouxe para a mesa em tão pouco tempo, do qual já falei, e ainda alguns dos planos futuros que o Nate Nanzer já mostrou estarem em progresso.

Os planos futuros que refiro têm a haver com a visão do comissário de querer que cada equipa tenha a sua arena para jogos (como as ligas de desporto tradicional). Isto quer dizer: jogos em Londres, Seoul, Los Angeles, Houston, Shanghai e muitas outras, principalmente nos E.U.A.

A razão pela qual acho que estes sejam os fatores determinantes é a sua inovação e o facto de serem completamente revolucionários nos esports. Vamos de cima para baixo e rever os pontos que apontei.

Franchising

OWL foi a primeira Liga internacional de esports a apostar no franchising das equipas, logo quando foi anunciada na BlizzCon 2016. Mais acima já expliquei como é que isto funciona, mas deixo em baixo uma lista das organizações e as suas divisões para a OWL (1ª temporada) abaixo:

  • Boston Uprising - Kraft Group (New England Patriots)
  • Dallas Fuel - Team EnVyUs
  • Houston Outlaws - OpTic Gaming
  • London Spitfire - Cloud9
  • Los Angeles Valiant - Immortals
  • Los Angeles Gladiators - Kroenke Sports & Entertainment (Arsenal, LA Gladiators, LA Rams, etc...)
  • Florida Mayhem - Misfits
  • New York Excelsior - Sterling VC (empresa de capital de risco)
  • Philadelphia Fusion - Comcast Spectacor
  • San Francisco Shock - NRG Esports
  • Seoul Dynasty - Gen-G (ex-KSV eSports)
  • Shanghai Dragons - NetEase (empresa de internet chinesa)

Este sistema de franchise permite uma estabilidade financeira e de jogadores muito maior, porque isto mais tarde implica salários e muitas outras coisas para fazer este ecossistema verdadeiramente profissional. Permite também a entrada de marcas não-endémicas, algo crucial para que os esports cresçam mais. Na OWL não vemos muito disto, mas na NA LCS sim.

A NA LCS aceitou 10 equipas para a temporada de 2018, e 3 delas são equipas de NBA - Golden State Warriors (Golden Guardians), Cleveland Cavaliers (100Thieves) e ainda Houston Rockets (Clutch Gaming). O potencial que isto pode trazer para os esports a nivel mundial é simplesmente absurdo, especialmente com a equipa de Nate Nanzer a arranjar patrocínio de uma marca como a Toyota.

Formato da Liga

A nível de formato não é preciso grandes explicações, sendo que já as fiz. No entanto, digo que o facto de que, semanas antes dos jogos começarem já se saber o horário, é muito cativante. Pessoalmente não sigo a Liga mas isto permite a que os seus seguidores saibam exatamente quando é que algo numa Liga, em que as coisas podem mudar num abrir e fechar de olhos, se vai passar. Para comparar, algo deste género só se viu (no CS:GO) com a BLAST Pro Series 2017 em Copenhaga e apenas mais recentemente com a alteração da ESL se manter fiel aos horários de transmissão anunciados (isto é, os jogos não eram jogados mais cedos do que o suposto).

O aspeto de auto-qualificar duas equipas baseado no aspeto de serem as melhores por divisão ao longo dos 5 stages é diferente e interessante, sinto que seja uma recompensa mais 'worthy' do que colocar equipas em qualificadores fechados e basear posições nas fases finais a partir disso. Outro fator interessante é o de reseeding após a primeira ronda de jogos nas Finais, porque assegura que match-fixing não acontece, por exemplo, ao randomizar os jogos.

Planos para o futuro

Com tantos anúncios e entrevistas a diversos sites, os detalhes da OWL não poderiam ser mantidos em segredo para sempre e, a falar com a Eurogamer, Nate Nanzer partilhou alguns detalhes na ideia de cada equipa ter a sua arena no seu território de casa. Isto dá uma verdadeira noção de liga (quase como se fosse uma de desportos tradicionais) à OWL.

Claramente é algo super ambicioso, e é por isso que, de acordo com o comissário, é algo que não vai estar implementado até "curtamente depois da segunda temporada". Este plano está a correr como planeado até agora, mas a organizadora quer-se assegurar de alta qualidade e que as equipas estão prontas para este desafio. Apesar de não poder partilhar uma timeline exata ainda, em algum momento no próximo ano anúncios definitivos poderão ser feitos. Nate acrescenta que é a prioridade estratégica número um de momento.

Mas claro, a vida não é um mar de rosas e existem os rumores de que uma equipa acha demasiado caro a implementação de um setup como o da Blizzard Arena, a que o comissário afirmou que isso variará de cidade para cidade. Com isto, ele quer dizer que a arena de visualização do jogo mudará dependentemente de onde são feitos os jogos, ou seja, em Londres um teatro com 1000 pessoas fará mais sentido e em Soul um estádio com 7000 pessoas encaixará melhor. Suspeita ainda que será algo que irá crescer à medida que as temporadas passam.

Existe também, e está ainda a ser refinado, um código de conduta para todos os jogadores (estou a olhar para ti, xQc) que foi distribuído pelas equipas antes da temporada começar. Foi aperfeiçoado com feedback dos jogadores e continua a ser. Não está publicado por ser um documento constamente mudado, mas isto cria uma relação mais próxima e pessoal entre os jogadores e a Liga que não é muito comum nos dias de hoje nos esports.


E termina assim uma mini-série de dois artigos que decidi fazer sobre o Overwatch e a OWL. E tu, como achas que vão correr as Finais da OWL? Qual é a tua opinião da Liga?

Diogo "Eutalyx" Santos


Puto prodígio dos esports. 15 anos e é explorado no newswriting há 1. Metaleiro non-stop e culpa o irmão por tudo isto.