2018 Sep 22 / 10:00

Review: Marvel's Spider-Man

Criar jogos de super-heróis nunca foi tarefa fácil, e nunca será, talvez pelo tipo de cooperação que estúdios/criadores têm, ou mesmo pela quantidade ou qualidade de conhecimento e gosto pela personagem e história que têm, tudo leva a diferentes abordagens ao projeto que se cria. Este exemplo pode aplicar-se à Rocksteady e aos jogos do Batman com a série Arkham.

A minha primeira experiência com um jogo do aranhiço foi “Spider-Man” do ano 2000, para Playstation 1 da Neversoft e Activision, um jogo bastante básico, mas com muita ação que marcou a minha infância e moldou o meu gosto pela banda-desenhada e o Universo Marvel.

Com a apresentação do jogo na E3 de 2016, as perguntas que me passavam pela cabeça eram se iria existir alguma sucessão de filme ou banda-desenhada, ou se infelizmente caminharia para o poço dos títulos mal sucedidos, como por exemplo “The Amazing Spider-Man 2” 2014 PS4 e “Spider-Man: Web Of Shadows” 2008 PS3. Embora muitos estúdios possuíssem a ambição de tentar oferecer uma experiência nos pés de Peter Parker desde 1982, apenas um punhado desses jogos foram “bons”, à grande exceção de “Spider-Man 2” para a Playstation 2, que foi o melhor na minha opinião.

Sony e a Insomniac Games fizeram uma parceria para criar algo totalmente original, sem seguir nenhuma história dos filmes nem das bandas-desenhadas, tudo com o apoio total e liberdade absoluta por parte da Marvel. Não existe melhor cenário possível para criar um jogo de super-heróis.

Temos Peter Parker nos seus vinte e poucos anos, naquele momento em que “não sabe muito bem o que fazer da vida”, já não trabalha no Daily Bugle como fotógrafo, é um génio da ciência e cria dispositivos especiais que usa no combate ao crime. A única coisa que se mantém intacta seja em jogos, comics ou filmes, é o “friendly neighborhood spider-man”, sempre disposto a ajudar idosos em apuros de um gang de ladrões num beco qualquer e deixá-los presos de cabeça para baixo.

Antes de tudo vamos mesmo ao começo do jogo, com algo que tenho a certeza que foi uma decisão com apreciações diferentes dentro da equipa de desenvolvedores - lançar os jogadores diretamente para a cidade já no meio de uma queda e inaugurar o tutorial com uma entrada de “web-slinging”, sem saber absolutamente nada de como movimentar a personagem, foi a escolha mais acertada e divertida de dar inicio à campanha. Sendo este o núcleo do jogo, era adequado ao jogador ter uma experiência imediata das mecânicas de movimento e combate, e conseguir imersão imediata dentro de jogo. Obviamente não é muito fácil de início, apesar de ter comandos bastante básicos, é importante dominar o “web-slinging” porque durante a campanha existem sequências onde perseguir inimigos é extremamente importante e pelo menos na dificuldade que joguei (Spectacular) nunca foi conseguido à primeira.

A cidade de Nova Iorque é um mundo vasto e bastante movimentado, tráfico, pedestres e crime sempre a aparecer a cada esquina. Vale a pena parar de saltar de prédio em prédio e andar mesmo nas ruas e prestar atenção ao nível de detalhe e os sons do ambiente.

Esta história original de Spider-Man tem um ritmo de narrativa bastante surpreendente, alternando entre a vida atribulada de Peter Parker e o sempre irónico Spider-Man, embora durante alguns momentos, a campanha lembre o filme com Tom Holland, com aquelas piadas em situações muito delicadas ou quando as coisas correm mesmo mal para o lado do herói, foi bem conseguido sem exageros forçados. Juntando à história principal, temos pequenos episódios com abordagens diferentes, eu pessoalmente gostei porque houve uma pausa da porção principal de ser super-herói e voltamos a ter gameplay com um ser humano normal que também quer dar o seu contributo à história.

Para ajudar à imersão, adicionar uma rede social com muito feed e comentários aos eventos recentes que acontecem de acordo com a progressão da campanha foi de génio, e quem melhor para fazer críticas aos acontecimentos da história? O Ex-patrão de Peter, J. Jonah Jameson da Daily Bugle que faz teorias da conspiração e discursos histriónicos.

Temos conhecimento de muitos jogos de mundo aberto que não têm o mapa com todo o conteúdo disponível desde início, Spider-Man não é diferente, temos que consertar torres da polícia nos edifícios da Oscorp para surgir algumas side quests, itens colecionáveis e zonas de gangs (desbloqueadas dependendo do progresso). Embora o jogo não tenha um ciclo dia-noite, os eventos/missões fazem essa mudança.

Exploração para itens colecionáveis é altamente encorajado, não pelo sentido de completar jogo a 100% (que para mim já era suficientemente bom), mas para ganhar tokens, um tipo de moeda para diversos upgrades em habilidades, dispositivos, comprar novos fatos e respetivas modificações. Estes tokens têm uma variante dependendo da side quest ou item encontrado:

  • Crime Tokens - parando o crime numa zona qualquer da cidade. Completando os objetivos extra, mais tokens são ganhos.
  • Backpack Tokens - localizando mochilas, fáceis de encontrar usando o mapa.
  • Base Tokens – Estilo horde/wave mode. Sobreviver até à última linha de inimigos nas respetivas bases de cada fação.
  • Landmark Tokens – Tirar fotografias de Monumentos ou Marcos da cidade.
  • Research Tokens – Minigames bastante informativos e divertidos de fazer. Os laboratórios são desbloqueados conforme o progresso do jogo
  • Challenge Tokens – Desafios de relógio, quanto mais depressa, mais pontos.

 

Outro ponto que me entusiasmou bastante foi o facto de quanto estamos a fazer algo opcional, existem sempre pequenas menções sobre o passado de Peter, algum acontecimento no universo Marvel e outras personagens, não é muito difícil de saber quais são as personagens que têm história em Nova Iorque, pois não? Também ninguém da Marvel nem da Sony negou a potencialidade de criar algo estilo MCU (Universo Cinematográfico Marvel), mas em formato jogo, é algo para pensarem e refletirem sobre um assunto que pode abrir portas a um projeto gigantesco.

O sistema de combate é algo que não se deve esquecer de mencionar, é bastante óbvio que não é o tradicional “carregar em botões aleatórios” e esperar que alguma coisa aconteça. Neste caso um dos focos principais deste sistema é a mobilidade e algumas semelhanças ao combate dos filmes de Jackie Chan, onde mobília é atirada aos maus da fita. Usar dispositivos de combate para diversas situações mostra a versatilidade e criatividade dos desenvolvedores, juntamente com cada upgrade para melhorar cada vez mais o estilo de combate de cada jogador.

As lutas por vezes podem ser sentidas como algo monótono, seja com Bosses ou inimigos normais, obviamente que não vou entrar em spoilers com a história principal, vou dar um exemplo bastante mais comum - acabando de salvar uma pessoa de um roubo qualquer, dois minutos depois temos o mesmo gang no topo de um prédio a fazer basicamente a mesma coisa. Apesar disso tudo, não é aí onde o jogo falha, é no ângulo da câmara, dei por mim dezenas de vezes a lutar com mais de 10 inimigos diferentes e estou a atirar um objeto qualquer num inimigo que não estou a ver. Isso não só demonstra falta de “inteligência” no sistema da câmara, como ficamos sem a ideia de quantos inimigos já derrotamos e quantos faltam. Para ter uma solução rápida nesses problemas, tive a obrigação de ir balançado nas teias na zona de combate e ir contando, mais uma vez, na dificuldade que joguei, onde levar dano tem uma penalização gigante, convém manter os números de mortes na cabeça.

No final de contas, as minhas espectativas para este título foram mais que superadas, a minha preocupação não foi ter um estúdio de topo que está habituado a trabalhar com jogos de mundo aberto, mas sim pelo facto de qual rumo iria ter, podiam ter optado por algo “mais seguro” e ter corrido mal, felizmente o trabalho árduo com um nível de design dos ambientes, sons e mecânicas excelentes deram frutos num título com vários pedaços de “Sunset Overdrive” e de outros de jogos estilo mundo aberto, criaram algo único e digno de uma das personagens mais antigas da Marvel.

Para terminar, a história foi o que me emocionou mais, parecia uma das histórias de Spider-Man que toda a gente conhece. Tem muito conteúdo com diversas personagens das comics, especialmente no final, que nos engole totalmente com turbilhão de emoções num curto espaço de tempo. No entanto tem um foco muito especial no lado humano de Peter e é isso que dá fulgor ao jogo. Se alguma vez sonhei em ser Spider-Man ou outro herói do universo Marvel, este jogo é uma viagem a esse mundo, irá agradar aos amantes do género mundo aberto, mas também aos fãs que seguem as comics e a parte cinematográfica. Agora é esperar pelo DLC que irá ser lançado antes do final do ano, certamente irá sair uma pequena review.

Esta review é baseada na cópia para PS4 fornecida pela Playstation Portugal

  • Lançamento: 7 Setembro 2018
  • Plataformas: PS4
  • Desenvolvedor: Insomniac Games
  • Editora: Sony
  • Nota Pessoal: 9/10

*Press kit fornecido pela IGDB 

João "JLCfreitas" Freitas


Técnico de Redes e Sistemas, amante de jogos de terror e fanboy da Blizzard. Achievement Hunter de noite. Speedrunner de dia.