2018 Nov 02 / 01:39

Review: The Messenger

Quando pedi uma cópia do jogo The Messenger estava longe de imaginar que me a enviariam... espera, isso não é o mais importante, o mais importante é que esperava um bom jogo, não esperava era um jogo tão próximo duma obra de arte. Durante boa parte dele pensei que seria um 12/10. Sim, é mesmo muito bom. 

The Messenger é na minha opinião um action platformer que a certa altura se transforma num metroidvania, embora o seu ponto forte seja mesmo a componente de plataformas. De forma resumida, a Terra passou por  um cataclismo, ficando inundada apenas restando uma ilha. A certa altura essa ilha é atacada por um exército de demónios que remetem o que resta da humanidade para o obscurantismo só para conseguirem sobreviver. A sua última esperança é um pergaminho que deverá ser transportado por um mensageiro. 

Tudo é em 2D com gráficos maioritariamente em estilo 8-bits, que a certa altura intercala com mudanças precisas para 16-bits. Este pixel-art não é tão detalhado como em Owlboy, por exemplo, mas nem tenta, tenta sim emular os anos 90 do início ao fim. 

O som é fabuloso, também este acompanhando a mudança entre 8 e 16 bits, com músicas exemplarmente compostas, lembrando jogos antigos. Também tem outros detalhes deliciosos como mudar de tom quando estamos debaixo de água. 

A mecânica de jogo em si é exemplar e não apanhei falhas. Salta à vista a similaridade com jogos como Ninja Gaiden ou Shinobi, e louvo não terem caído na tentação de colocar este jogo num nível inatingível para um jogador casual como eu. Não me interpretem mal, o jogo é bastante difícil, mas justo. Nunca acabamos a dizer que morremos por um glitch, ou por problemas nos controlos, percebemos sempre o que falhou, onde fomos errando, mas mesmo sendo um jogo que se preza a imensas mortes (no meu caso a rondar as 400) ainda dá algum espaço para se jogar à bruta, cometendo alguns erros propositadamente de forma a simplificar sobremaneira a travessia, duma secção mais difícil. Mas aí não conseguimos ver o melhor deste jogo. Quando conseguimos conciliar as diversas habilidades do nosso herói, especialmente a cloudstep, que é a habilidade de ter um segundo salto depois de atacarmos um inimigo ou item, é que conseguimos apanhar a beleza sublime deste jogo. Conciliar duas ou três habilidades para passar uma secção é quase como poesia em movimento, e deixa-nos sempre com um sorriso na cara. 

Claro que também nos deixa alguma raiva quando estamos com dificuldade em passar determinada zona, mas os checkpoints são generosos, e na maioria das vezes estão inteligentemente colocados para nos darem tempo e espaço para morrer sem grande sofrimento nas partes mais difíceis. 

Morrer também tem o seu quê de giro pois somos salvos in extremis por um demónio alado que em seguida nos fica com algumas moedas para compensar o trabalho. Vale bem a pena, não só por que nos dá infinitas vidas, como vem sempre acompanhado duma frase sarcástica a gozar com a nossa performance. Peca por ser algo repetitivo, pois para quem morre tantas vezes quanto eu, rapidamente apanhamos todas as frases. 

Falei nas moedas, por isso não posso deixar de falar da loja e do seu bastante sarcástico Shopkeeper. Eu estava sempre a procurar uma entrada na loja, a maior parte das vezes nem era para comprar nada, mas só para falar com ele, para ver se tinha outra história mordaz para me contar ou para ver se conseguia ver o que tinha no armário. Era sempre uma alegria. E o que podemos comprar? Durante a maioria do tempo podemos fazer upgrades às nossas habilidades seguindo uma skill tree. Os itens mais importantes são relativamente baratos, e no fim do jogo vão sobrar-te algumas moedas para as quais já não irás ter uso. 

Volto a falar da história do jogo para introduzir novos conceitos de jogo. Tenho que dizer que toda esta é bastante bem enquadrada, muito bem escrita e contada, gozando com o jogo, os seus clichés e inspirações. Tiro-lhes o chapéu, mas esta mesma história leva ao que considero o pior momento do jogo, o momento em que passa dum jogo de plataformas perfeito, para um metroidvania carregado de backtrack não muito divertido, com partes esporádicas já a cair no aborrecidozinho. O que vale é que esse é um momento curto para um jogo que me levou 20 horas a concluir, mesmo assim eu tê-lo-ía evitado pois corta imenso o ritmo ao jogo. Especialmente sendo um jogo tão bom, jogar os mesmos níveis sem a diversão de lutar contra os bosses que já havíamos derrotado não foi algo que me tivesse motivado. Provavelmente teria parado por aí se a história não estivesse a ser tão bem contada e se não tivesse de fazer esta análise. 

Perto do fim do jogo começam a dar dicas que apontam para potencial replay value. Eu não fico com grande vontade de jogar novamente, mas os complecionistas terão bastante com que se entreter, pois há ainda bastantes itens que deixei por encontrar e que levam a novos elementos no jogo. 

Em resumo, o jogo estava a ser perfeito, mas a certa altura vê-se que tentaram demais aumentar a sua complexidade sem que nada o justificasse. Essa sensação só desapareceu quando o jogo voltou ao ritmo inicial, com novas áreas e novos puzzles. Há muito que não tinha uma sequência de jogos indie tão boa. The Messenger acaba por ser a prova que é muito mais fácil encontrar uma surpresa, uma nova mecânica ou chapiscos de genialidade onde menos se espera. Recomendo vivamente!

 

  • Lançamento: 30 de Agosto de 2018
  • Plataformas: PC/Switch
  • Desenvolvedor: Sabotage Studio
  • Editora: Devolver Digital
  • Nota Pessoal: 9/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Sabotage Studio
  • Analisado na versão do jogo para PC