2019 Jan 24 / 02:04

Review: Jon Shafer's At the Gates

CIV 5 é até hoje o meu jogo de grande estratégia por turnos favorito. Quando aparece um jogo do mesmo estilo feito pelo seu designer acabamos por pensar que vamos descobrir uma pérola. Não negando o que tem de bom, deixou-me um tiquinho ao azedo enquanto o joguei…

Jon Shafer’s At the Gates é um daqueles jogos vulgarmente designados por 4X. Explore, expand, exploit e exterminate. Grande estratégia por turnos com os habituais hexágonos onde os nossos bonequinhos se movimentam. É um jogo que se cinge a um espaço temporal muito específico, com duas condições de vitória, cada uma delas procura à sua forma que nos tornemos mais fortes que um Império Romano que já se encontra na sua fase descendente.
Graficamente fez-me lembrar algumas pinturas dos meus livros de história de quando eu era puto, que representavam os camponeses nos tempos dos reis ou dos descobrimentos. Nesse aspecto parece bastante bem enquadrado, pois a forma como a arte foi concebida muito provavelmente não encaixaria num outro jogo.
A música podia ser algo mais intensa, mas acaba por ser bastante boa. Habitualmente procurando dar a ideia que estamos numa jornada épica. Não tem como falhar. Não gostei tanto dos efeitos sonoros, especialmente o dos passos das nossas unidades, que infelizmente era o que ouvia mais.

Passando já ao gameplay passo ao que de novo o jogo tentou introduzir, uma componente de roguelike e outra de crafting.
Neste jogo não produzimos as nossas unidades, estas vão chegando ao nosso acampamento como clãs, a um ritmo que depende da nossa fama. Cada clã tem as suas especialidades que concilia com um componente de moral e outra de ambições ou desejos, se preferirem. Ou seja, cada vez que começares um jogo novo o mais certo é que este venha a ser diferente do anterior. Isto seria engraçado se os passos a seguir não fossem essencialmente os mesmos, especialmente na lentííííííííssima fase inicial do jogo, onde acabas por identificar, extrair e esgotar os recursos que tens à tua volta antes de avançares para o seguinte. Esta fase inicial é quase só isso, uma procura constante de recursos antes de conseguires evoluir o teu clã até um nível de especialidade que te permita ser praticamente autossuficiente, nem que com a ajuda da visita esporádica da caravana que traz alguns recursos que podes trocar. Essencialmente temos de trabalhar com o que há e raramente da maneira mais optimizada possível, dados os constantes desejos dos clãs que podem subitamente deixar de ser uma coisa, para ser outra completamente diferente. Ainda por cima, por vezes não gostam uns dos outros. Acabava por deixar um ou outro morrer só porque me estavam a aborrecer. Eu sei, sou um tirano.
O que também achei algo diferente foi a capacidade de produzir alguns elementos mais elaborados a partir de diferentes matérias primas. Claro que só conseguimos isso nas fases mais avançadas do jogo, mas não deixa de ser um toque digno de registo.
Falando mais especificamente dos 4X. A fase de exploração é claramente a pior do jogo. Explorar é fastidioso que dói e creio que isso é propositado. As unidades andam pouco de cada vez e tive sempre dificuldade em encontrar algum clã que gostasse mesmo de a fazer. Além disso aqui o perigo é bem maior que noutros jogos. Os bárbaros são mais fortes que o comum explorador, que não tem meios para fugir deles, e embora os acampamentos sejam facilmente visíveis não quer dizer que não nos venham procurar e mesmo que consigamos ganhar um acampamento ele não é destruído, ou não descobri como o fazer, tinha sempre de lá deixar uma unidade sem perceber bem o que ganhava com isso.


Quem gosta destes jogos também gosta de expansão à grande, mas aqui não tens essa sensação de gratificação imediata. Tens de trabalhar bastante para te ires expandindo. De forma genérica expandes para onde há mais recursos e assim sucessivamente.
Esses recursos serão a base do teu futuro reino e são finitos, não duram para sempre. Cada recurso que encontres tem uma duração limitada de rondas, rendendo um número predefinido que também depende da profissão de quem o extrai. Há muitos recursos diferentes no papel, mas na prática todos são explorados da mesma maneira, seguindo a mesma brochura. Enquanto os procuras na primavera, verão e outono não terás grandes problemas, mas no inverno entra outra inovação do jogo, a diferença entre estações. Cada clã/unidade depende dos recursos existentes em cada hexágono para sobreviver, e no inverno estes congelam e esgotam. Cedo percebi que era isso que causava dano às minhas unidades, bem mais que qualquer outra coisa e as matava em três tempos. Também aborrecido é que quase todos os recursos esgotam no inverno, o que faz com que tenhamos de gerir muitas unidades em tempos mortos. Voltar para o acampamento e curá-los, etc. Sim, curá-los também só pode ser feito nos acampamentos e depende de recursos raros e caros. Sim malta, o jogo não é fácil de começar.
Para quem gosta de andar à porrada, que é o meu caso, o jogo pode ser uma desilusão. Inicialmente somos o gajo mais pequeno da zona, e só muuuuuuuito perto do fim do jogo podemos dizer que temos capacidade para ir à luta. Isto podia ser compensado por outros mecanismos, como a diplomacia, mas para ser sincero esta não funciona minimamente. Não nos oferece opções praticamente nenhumas, estamos sempre sujeitos à vontade dos outros reinos e a interacção por norma cinge-se a receber ou dar algum tributo. Por nossa iniciativa podemos declarar guerra ou, a partir de certo nível de amizade, fazer uma aliança. Procurei fazer alianças só para desbloquear facções, pois no início estão todas bloqueadas excepto uma, e só são desbloqueadas se fizermos alguma aliança ingame. Mesmo assim não nos vão alterar muito o gameplay pois apenas nos dão alguns perks.
Acho que nem vou falar da religião, que nunca percebi para que servia e só a descobri por acaso.

E assim chego ao fim desta análise. Admito já que este jogo não é para mim. Alguns amigos gozavam comigo por gostar de jogos lentos como Civilizations ou Europa Universalis, mas em nenhum dos casos um jogo me pareceu tão lento quanto este. Ainda assim o que At the Gates faz, faz decididamente bem. Vai ser para um nicho de jogadores, pois foge ao casual, mas ao mesmo tempo abandona muitas das características mais complexas dos outros. Sim, ainda há pouco fiquei com uma impressão similar com outro jogo, parece que não terá propriamente um público alvo. Lento demais para os casuais, com pouca complexidade para os hardcore. Nunca disse que analisar era fácil…

  • Lançamento: 23 de Janeiro de 2019
  • Plataformas: PC
  • Desenvolvedor: Conifer Games
  • Editora: Conifer Games
  • Nota Pessoal: 7/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Conifer Games