2019 Feb 12 / 10:37

Review - No More Heroes: Travis Strikes Again

Há jogos que nos dão um nó no cérebro. Não foi o que aconteceu com No More Heroes: Travis Strikes Again, já que este jogo deu-me múltiplos nós no cérebro, e até me começou a doer o cabelo quando embirrei que queria dar um sentido a tudo o que estava a experienciar. Felizmente isso passou-me, e acabei por apreciar o jogo pelo jogo. Quando aceitamos que é isso que devemos fazer o jogo revela-se bem mais divertido do que parece inicialmente.

No More Heroes: Travis Strikes Again é mais um hack n’slash de Goichi Suda, um spin-off da série No More Heroes onde Travis Touchdown, o nosso herói, está “reformado” da vida de assassino e vive escondido numa roulotte no meio do Texas a jogar videojogos. Chatice das chatices vida de assassino preza-se à criação de malta que não gosta de nós, e Travis tinha assassinado a filha de Badman, um ex-jogador de basebol agora também assassino, que agora procura vingança. No esperado confronto com Travis são ambos transportados para dentro duma consola de jogos, a Death Drive MKII, onde na prática começa o jogo.
Fugindo ao habitual nos jogos da franquia este jogo joga-se em perspectiva top-down, por vezes assimétrica. Os gráficos exigem mais do que a Switch por vezes quer dar, mas eu percebo o encanto que quiseram empregar a este jogo que utiliza o Unreal Engine 4. Mesmo considerando que não são os melhores gráficos que já vi, há momentos muito bem construídos, e muitos dos mini-jogos transportam-nos para a nossa infância e aí o grafismo está perfeito.
A nível sonoro está tudo minimalista. Poucos efeitos e ainda menos voice acting, o que mais gostei foi mesmo do tom revivalista da maioria deles. Na prática o que está feito está bem feito. Há alguns truques e atalhos usados para evitar o uso da voz, algo que na prática até resulta bem. 

O importante dos jogos é sempre o gameplay. Tecnicamente pode ser perfeito, mas depois ser dum aborrecimento atroz. Bem, aqui já percebemos que não estamos perante um prodígio técnico, e em cima disso acrescento que este é provavelmente o único jogo que me lembro de jogar que tenta propositada e descaradamente aborrecer-nos. Pior, foca constantemente esse ponto e ainda goza. Enquanto não entramos na onda consegue mesmo mexer connosco, e muito sinceramente a mim conseguiu aborrecer.
Então mas como é que te aborreces com um hack n’slash? Porque boa parte do jogo não envolve andar à porrada. Há alguns mini-jogos em cada nível e para termos acesso a cada novo jogo temos de passar por um secante e super aborrecido momento de novela visual clássica, sendo que o primeiro de todos durou cerca de 30 minutos. A certo ponto já nem lia a história. São nestes momentos de novela visual que a história mais avança, mas de forma errática, algo que rapidamente aprendi a desvalorizar.
O próprio jogo tem mecânicas aborrecidas, como o de recarregar a Beam Katana de Travis ou o bastão de basebol de Badman, que estão dependentes duma combinação de botões que muitas vezes não funciona bem, especialmente se estivermos a meio duma batalha.


O jogo suporta co-op local com o uso de ambos os joy con, mas tive sempre algum receio de partilhar o jogo com o meu filhote depois de algumas das cutscenes iniciais, e acabei por não testar essa feature, utilizei sim a oportunidade de usar ambos os personagens como sendo “vidas extra”, ou seja, quando a vida de Travis estava irremediavelmente perto de acabar, trocava de personagem. Isto levou a que tenha sido com Badman com quem acabei por derrotar a maioria dos boss. No fundo apenas esses apresentavam algum desafio, já que a maioria dos minions eram carne para canhão, e apenas para o fim apareciam alguns muito mais desafiantes, sendo que mesmo os boss intermédios eram relativamente fáceis de derrotar no nível intermédio de dificuldade. Admito que a ideia por detrás do nome de cada novo adversário era bem esgalhada, todos usando uma piadola com bugs que temos de eliminar do jogo. Interessante também o sistema de equipar skill chips que vamos apanhando. Cada um atribui diferentes e muito úteis skills que nos permitem jogar à xoninhas cobardolas quando nos falta a destreza para decorar e evitar os ataques dos boss, ou mesmo para mais efectivamente lutarmos contra as multidões de adversários “carne para canhão” que aparecem. Além disso ainda ganhamos XP com a qual podemos ir evoluindo ambos os personagens.
Irritou-me a colocação de pontos de save ou de recuperação de vida, já que a maioria das vezes apareciam demasiado espaçados ou demasiadamente próximos entre eles. Claro que tudo me pareceu estrategicamente colocado para isso mesmo… irritar! 
E porque raio também temos de colecionar receitas? 
Outras colecções que podemos fazer são de t-shirts de jogos indie que podemos adquirir com dinheiro que vamos apanhando durante o jogo. Todos os jogos são bastante conhecidos e acabei por comprar algumas, se bem que na perspectiva em que jogamos acabamos por só as ver em cutscenes.
Procurar por procurar, as Grandpa’s Words of Wisdom que nos eram dadas pelo Bugxtra eram um must. Aquela pitadinha de humor sarcástico que nunca fica mal.

Chego ao fim e com o que fico? Com um jogo carregado de referências a cultura pop. Tanta referência que não fui capaz de acompanhar algumas delas, mesmo sabendo que estava perante uma. O próprio Travis parece agora uma pessoa diferente, deixando aquele fervor por anime e videojogos, mostrando mais uma panóplia de gostos que me chega a baralhar se são dele ou do criador. Ou seja, este jogo comemorativo dos 20 anos da franquia é uma bela amálgama de coisas. Quão grande é essa amálgama? Tão grande que chego ao final da análise com a sensação que nem falei do jogo em si. Por norma este tipo de jogos ou é brilhante ou um imenso monte de esterco. No More Heroes: Travis Strikes Again consegue ficar a meio disso, o que já de si é um feito assinalável.

  • Lançamento: 18 de Janeiro de 2019
  • Plataformas: Nintendo Switch
  • Desenvolvedor: Grasshopper Manufacture
  • Editora: Nintendo, MARVELOUS!
  • Nota Pessoal: 7/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Nintendo Portugal