2019 Mar 06 / 01:26

Análise: >Observer_

Eu a analisar um jogo de detectives? O mundo deve estar para acabar, mas por outro lado também analisei o Ashen e gostei, nada me impediria de ser surpreendido por este também, por isso aproveitei o recente lançamento para a Switch e pedi-o. E sabem que mais? Até que gostei do jogo…

Pedi este jogo porque a sinopse me pareceu um misto entre o clássico Blade Runner e o meu livro favorito, 1984, e de facto nesse aspecto não decepciona, é exactamente isso, uma distopia retrofuturista em Cracóvia no ano de 2084, depois dum vírus associado a implantes de aumento de performance ter devastado boa parte da humanidade. Dessa devastação emergiu a companhia Chiron, para a qual agora somos detectives, que na prática controla e produz tudo. De forma resumida o enredo gira em torno do desaparecimento do nosso filho que já não víamos há muitos anos, e enquanto o procuramos vamo-nos deparando com diversos crimes que vamos tentando resolver.
Praticamente todo o jogo anda à volta dum bloco de apartamentos, o que até pode parecer redutor, mas o ambiente está exemplarmente enquadrado e criado, sendo que para isso os efeitos sonoros desempenham um papel de excelência, criando e aumentando os momentos de tensão, que em certos momentos chegam a parecer palpáveis.
Quando mencionei o tom retrofuturista provavelmente imaginaram logo neons, aparelhómetros com os quais apenas sonhamos, mas ao mesmo tempo uma cidade devastada e pobre, pois apenas temos contacto com a ralé da população, o fundo do fundo, pessoas sem acesso a nada. Há imensos detalhes a contextualizar todo o ambiente, pósteres e/ou ditames fascistas escritos em polaco. Um mimo para quem procura e valoriza estas pequenas coisas.

Em relação ao gameplay entramos na vertente mais convencional dos jogos de detectives. Neste jogo vivemos num mundo em que implantes que aumentam as nossas capacidades são reais. Temos a capacidade de ver em RX, visão térmica ou infravermelho, bem como um prático scanner que nos diz o que cada objecto interagível é na realidade, o habitual para investigarmos causas de crimes ou acedermos a pistas. Estas são as funções que mais iremos utilizar, mas a nossa posição de detective evolui à volta da capacidade de acedermos à memória das pessoas, mas não as vemos de forma literal, vemos como sensações, puzzles ou metáforas. De forma genérica percebo o conceito, mas não gostei. Isto é para gente mais inteligente que eu.
O jogo ter sido feito pela mesma malta do Layers of Fear e ser na perspectiva de primeira pessoa é um bom indicador quando imaginamos ambientes tensos, e na maioria dos casos é isso mesmo que acontece. Alguns efeitos contribuem bastante para isso, como o simples facto de termos de ser nós a abrir a porta com um movimento do joy-stick, movimento que podemos parar a qualquer momento, algo que por vezes vem acompanhado dum efeito sonoro que nos põe a pensar se a queremos mesmo abrir, ou se o medo do que vem do outro lado é maior do que a vontade de mudar de sala. Há no entanto uma mecânica que não me pareceu encaixar no jogo, haver secções de stealth reais. Sinceramente acho que preferia apenas ter a sensação que estava a fugir de algo, sem na realidade estar mesmo a fazê-lo. Acho que o jogo se preza muito à tensão ilusória mais que ao medo de algo real.
Em termos de dificuldade está mais ou menos como esperava. Tive de ir ver um guia uma ou duas vezes até me habituar às mecânicas, mas depois fui andando, usando a habitual técnica de interagir com tudo o que via, porque alguma coisa havia de estar certa.
É importante falar com toda a gente, pena que a maioria das pessoas apenas nos respondem por intercomunicadores. Por um lado é aborrecido, por outro torna tangível o medo e respeito que nos têm, ao mesmo tempo que a doença associada aos implantes é constantemente mencionada.

Em resumo, este jogo conduz-nos elegantemente na história, cria um ambiente credível, o som é magnífico. A história é aceitável, mas creio que acaba por perder algumas hipóteses de ser mais incisiva, pois num mundo tão rico usa muito a superficialidade ao falar de temas importantes nesta distopia. Há também alguns momentos em que o medo é criado de forma mais fácil, algo que não encaixa muito bem, mas isto sou eu a criar aqui um ghetto de mini-reclamaçõezinhas num jogo que me agradou bastante, e acreditem que eu não gosto de jogos de detectives.

  • Lançamento: 15 de Agosto de 2017
  • Plataformas: Xbox ONE/PC/PS4/Nintendo Switch
  • Desenvolvedor: Bloober Team SA
  • Editora: Aspyr
  • Nota Pessoal: 8/10
  • Jogo analisado na sua versão para Nintendo Switch
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Bloober Team SA