2019 Apr 03 / 15:27

Análise: The Red Strings Club

The Red Strings Club é um daqueles jogos que só experienciei porque colaboro com a Hyped, muitas vezes obrigo-me a jogar jogos que não jogaria de outra maneira, para no final acabar bastante surpreendido. Duma forma crua e simples este jogo mexe connosco duma maneira que no final não sabemos explicar porque e como nos tocou.

The Red Strings Club já foi lançado há cerca de um ano, mas teve agora concluída a versão para Switch. Para ser totalmente honesto nunca tinha ouvido falar do jogo, mas pareceu um conceito interessante e aproveitei para pedir a chave. Duma forma resumida a história acontece no futuro, numa realidade em que o Mundo é controlado pelas grandes corporações. Gostei que tivessem escapado ao cliché de usar temas e cenários retrofuturistas, aqui é tudo só futurista, as pessoas vivem carregadas de implantes cibernéticos que lhes facilitam a vida ou aumentam as capacidades. Jogamos essencialmente num bar, e embora controlemos três personagens de cada vez que o jogarmos, o nosso foco é em Donovan, um barman que tem a capacidade excepcional de realçar emoções dos clientes enquanto lhes serve as bebidas e que é também um facilitador de informações. Os outros dois são Brandeis, um hacker carregado de implantes e Akara que representa o topo da tecnologia no que toca a androides.
A música leva-nos para bares dos anos 90, música calma de piano, sempre bem enquadrada e, para ser honesto, não há muito a acrescentar neste ponto.
Graficamente temos o habitual pixelart de 8 bits que se vê muito hoje em dia. O detalhe é generoso, quer com os personagens quer com os planos em si, mas gosto sempre de comparar com Owlboy, e aí fica a perder consideravelmente.

Bem, agora falo da parte que mais me custa caracterizar, o gameplay. Vou ser generoso e considerar que efectivamente jogamos. Na práctica temos dois minijogos e uma secção de puzzle, tudo o resto é história e tomada de decisão. 
Num dos minijogos temos de misturar bebidas para realçar um determinado sentimento. Isto é tudo bastante simples, basta escolher o sentimento e preparar a bebida. No outro temos de usar algumas ferramentas para esculpir implantes para colocar em pessoas. Embora seja óbvio que foram pensados para PC, usando um misto do controlo analógico com o “D-Pad” da Switch o processo parece muito mais fácil e preciso. Tudo funciona bem. Na secção de puzzle temos essencialmente de fazer uma série de telefonemas para conseguir informação, que nos permita fazer mais telefonemas, que por sua vez nos conseguem mais informação que, por fim, nos permitem hackar o computador principal da corporação. Mais uma vez, nada de muito complexo, mas simplesmente funciona.


Deixei propositadamente a história e tomada de decisão para o fim, pois aqui é que o jogo brilha. Esperava uma história cheia de voltas, revelações surpreendentes, decisões difíceis, mas na prática não é isso que acontece. Para que percebam, o jogo começa pelo fim, o que torna o exercício de escrita bastante difícil, dado que sabemos desde logo com tudo vai acabar, e porque impossibilita que a história espalhe em árvore, dado que tudo vai acabar no mesmo sítio. Assim o jogo é mais como uma vila com duas ou três ruas com várias travessas entre elas e que vão todas dar ao mesmo lado. Andamos a saltar de rua para rua, e depois de chegarmos ao destino ainda nos dão a opção de escolher onde estacionar o carro, mas é apenas isso. Então como é que eles tornam isto interessante? Com uma qualidade de escrita exemplar e bastante credível, com a capacidade de nos fazer perceber que as decisões que tomamos, embora de certa forma previsíveis, alteram o curso dos acontecimentos. Há muito mérito na forma como escreveram o jogo. Não achei nenhuma decisão propriamente difícil de tomar, e durante todas elas eu sabia de antemão qual o caminho que estava a escolher. Repito, nada é surpreendente, mas também não sabemos o que vamos encontrar. É algo difícil de explicar. A primeira vez que joguei o jogo levei pouco mais de 3 horas a concluí-lo, mas tinha de jogar mais vezes, porque havia travessas que tinha mesmo de explorar, porque não aguentava não saber o que escondiam. As vezes seguintes foram consideravelmente mais rápidas, pois há um prático botão de fast forward. Todos os jogos deviam ter isso.
Mesmo considerando tudo isto o final conseguiu comover-me, o que é fantástico. Sem usarem os fáceis clichés, só baseando o jogo na qualidade da escrita conseguiram agarrar-me duma forma assombrosa.
Obviamente quando o jogo nos agarra tanto ficamos sempre a pensar que algo podia ser melhor, e aí vem o meu mini ghetto de queixas. Todos os personagens são muito bem caracterizados, pelo que acabei por estranhar a forma leve como foram caracterizando o “meu” personagem principal, Donovan o barman que troca informações. Há também um personagem que me parece caído do céu (ou inferno neste caso) sem forma de encaixar na história de forma coerente.

Sendo assim, e agora que tenho de passar para outro jogo, acho que tive em mãos outra gema. O jogo é fantástico. Consegue conciliar diversas mecânicas e tornar uma mera novela visual num jogo viciante. Comove-nos sem nada para nos comover. Faz-nos tomar decisões difíceis sem nos dificultar realmente a vida. Um achado que recomendo vivamente.

  • Lançamento: 22 de Janeiro de 2018
  • Plataformas: Nintendo Switch/PC
  • Desenvolvedor: Deconstructeam
  • Editora: Devolver Digital
  • Nota Pessoal: 8/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Devolver Digital