2019 May 23 / 10:20

Análise: Rage 2

Muitas vezes ouvimos na rua ou em filmes, por norma para deixar alguém desconfortável, aquela pergunta: “De qual dos teus filhos gostas mais?” Pois deste gritante casamento de DOOM com Mad Max, eu não tenho a menor dúvida. DOOM carrega o segundo às costas, ainda lhe mete um soro e prepara-lhe a comidinha. Depois de tudo isto faz uma prova de triatlo e, mesmo assim, consegue acabar numa posição respeitável.
Rage 2 é um first person shooter que nos melhores momentos se joga em corredor, nos piores em mundo aberto. Pega na história do primeiro jogo, um mundo pós-apocalíptico destruído por um asteroide em que a humanidade teve de se unir para combater uma ameaça comum. Estamos no ponto em que a ameaça do primeiro jogo regressa, o General Cross, desta vez muito mais forte, continuando com a ideia que mutantes geneticamente modificados são o futuro do planeta. Enredo assaz original.
 
Graficamente parece ser bastante bonito no PC, mas eu joguei este jogo numa Xbox One S, que me parece ser a pior opção para o experienciar, até porque a sua resolução nativa deixa o jogo muuuito esbatido, e com as texturas das paisagens muito aldrabadas. Mesmo assim o detalhe dos bonecos e objectos com os quais podemos interagir é agradável. Numa fase final do jogo alguns efeitos de luz cegam-nos completamente. Isto aborrece tanto que achei importante mencioná-lo.
 
A nível sonoro acho que ninguém se pode queixar. Uma banda sonora que parece uma versão menos agressiva do metal de DOOM, para mim uma das bandas sonoras melhor produzidas num jogo até hoje, em que só consigo criticar o costume… entra em cena ainda antes de vermos os adversários, sai ainda antes de termos a certeza que matámos todos. Aqui começa a ser habitual, mas mesmo não sabendo como corrigir isto, sei que não quero lutar sem esta música em plano de fundo. A nível de efeitos sonoros vais encontrar talvez alguns dos melhores sons de armas que já ouvi, vais ouvir até ao detalhe do headshot ser marginalmente diferente para ser perceptível o som da cabeça a explodir como se fosse uma melancia. Tão bom…
Quase que me faz esquecer tudo o resto, que mesmo não se destacando, também não atrapalha. Aponto algo que me aborreceu, nas cheats podes escolher uma voz para te ir gozando ao longo do caminho. A certo ponto essa voz bugou e começou a repetir sempre a mesma coisa. Uma pena, porque era bem divertida.
Então e gameplay? Bem, Rage 2 parece que são dois jogos diferentes. Num tens um mundo aberto estéril, cinzentão, com muito pouco a acontecer fora das repetitivas missões acessórias, com uma condução pouco precisa e que para pouco mais te serve que te deslocares do ponto A para o B quando não tens fast travel disponível. Para que vejam, eu pouco costumo usar fast travel, mas neste jogo estava permanentemente a procurar se tinha um ponto para viajar que me pudesse poupar alguns momentos de sofrimento na estrada. Este jogo serve de âncora ao jogo que vou falar de seguida.
O Rage bom é o Rage da história. Ok, já percebemos que a história em si não deslumbra, mas o importante é que não atrapalha e ainda nos oferece o melhor deste jogo, o gunplay. Assumindo desde já que DOOM é dos meus jogos favoritos de sempre, e que o gunplay deste Rage me parece uma fotocópia do outro é fácil perceber que me apaixonei pelas secções do jogo em que realmente disparava. Não se iludam com o mundo aberto, o core deste jogo é passado em níveis lineares em corredor, com imensos elevadores estrategicamente colocados para dar tempo ao jogo para carregar novas secções das missões sem um tempo de loading, mas não te vais importar porque na tua cabeça já vais estar a programar o teu strafe shooting, a forma mais agressiva de enfrentar os adversários, porque o jogo te incentiva a partir para cima deles para apanhares os pequenos bocadinhos de vida que deixam cair quando os matas, isto aliado a uma das melhores caçadeiras dum videojogo é sinónimo de diversão garantida. A inteligência dos inimigos não deslumbra, mas que eles te querem destruir com tudo o que têm, isso parece-me claro. E depois há o modo Overdrive que nos transforma em bestas destruidoras por breves momentos, que quando criteriosamente activado nos proporciona momentos de grande deleite.
Então, é uma cópia de DOOM, deve ser mais fraco, não? Não propriamente. Na minha opinião, fruto de algumas habilidades especiais e dos múltiplos powerups que podes aplicar a ti ou às armas, o gunplay de Rage 2 torna-se muito mais interessante que aquele que tenta copiar. É quase uma heresia dizer isto, mas é o que sinto. E considerem que joguei isto com um comando e não tenho jeito nenhum para disparar com um comando, isto com teclado e rato deve ser um luxo!!!
Se esta vertente não é um 10, lá próximo anda. Pena que mesmo nestes momentos tenhas que andar à procura de caixas cor de rosa escondidas em cenários cheios de cor de rosa, ou caixas cinzentas escondidas em cenários cheios de cor cinzenta. Parece que propositadamente querem aumentar o tempo de jogo, o que é compreensível pois as missões da história devem-me ter tomado cerca de 12h. Talvez tenha feito mais duas horas de grind obrigatório para poder desbloquear missões de história junto das 3 facções com as quais interagimos e depois sobram as missões repetitivas que imagino que muita gente não venha a concluir.
Em resumo, hoje em dia valoriza-se muito o conteúdo nos jogos. Introduzir mais conteúdo num jogo torna-o melhor? Muitas das vezes não, e Rage 2 é o exemplo perfeito disso mesmo, contudo é difícil explicar um preço de jogo AAA com 15 horas de conteúdo. E se lhe tirassem tudo o resto? Bem, seria apenas uma reskin de DOOM. Mesmo assim, creio que é dos jogos que menos me importo de ter uma reskin, pois mesmo atrelado a uma âncora, jogado na pior consola possível e jogado com um comando, há muito que não me divertia tanto com um jogo, e por sorte no jogo que era a sequela que ninguém desejava.
  • Lançamento: 14 de Maio de 2019
  • Plataformas: PC/Xbox/PS4
  • Desenvolvedor: id Software; Avalanche Studios
  • Editora: Bethesda Softworks
  • Nota Pessoal: 7,5/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Ecoplay
  • Jogo analisado na sua versão para Xbox One S