2019 Nov 25 / 14:45

Análise: The Outer Worlds

Fallout, … erm The Outer Worlds é um excelente Fallout… epá, isto assim não vou lá. Ok, venceram-me. The Outer Worlds é Fallout no espaço, pronto, está dito. Posto isto o jogo é bastante bom, e gostei mais dele do que qualquer outro Fallout que já joguei.

Mistura a jogabilidade de Fallout, o setup de Mass Effect Andromeda e a palete de cores de No Man’s Sky depois de pedrado, condensa tudo em 30 horas e tens The Outer Worlds. Ei, está fantástico, a sério. Claro que a história não é nada de assombrosamente novo, dum lado tens a corporação má, do outro tens as pessoas exploradas. Pelo meio tens mais umas quantas facções que funcionam como uma espécie de missões acessórias. O twist é que nos seus melhores momentos a escrita é tão boa que ficamos com dúvida genuína sobre o que fazer, nos piores momentos nunca é pior que convencional.

Graficamente os fluorescentes, néons e temas retrofuturistas estão por toda a parte. Inicialmente pensei que iria ficar ceguinho dos olhos, mas isso passou, e o pior que tenho a apontar é que, por vezes, os inimigos ficavam meio escondidos no meio das cores. Não sendo um jogo AAA, a certo ponto começamos a notar que os modelos das personagens são muito parecidos entre si, e reconhecemos imediatamente os momentos em que nos cruzámos anteriormente.

Não tenho nada a apontar a nível sonoro. Muitas vezes fiquei impressionado com as conversas que os NPC estavam a ter quando nos aproximávamos, curiosamente a maioria das vezes não eram repetidas, pois se voltássemos a cruzar-nos noutra ocasião estavam a falar doutra coisa, embora nem sempre isso acontecesse. Ahh, e ainda tamborilo a música do ecrã principal.

Contam-se pelos dedos duma mão os jogos em que fui à procura das missões secundárias praticamente com o mesmo entusiasmo desde o início ao fim. Bem, estou a exagerar, apenas houve um jogo em que isso aconteceu, foi neste. Tenho que vos dizer que mal entrei no jogo pela primeira vez esqueci tudo o que se passava à minha volta, e por mais de uma vez foi a minha esposa que me foi tirar à força do mundo onde me encontrava.

Com uma escrita divertida e praticamente sempre bem enquadrada, senti-me sempre motivado para avançar e ajudar toda a gente que encontrava pelo caminho. Tenho de admitir que durante a maioria do jogo procurei em praticamente todos os recantos por gente nova com quem falar e… li mesmo os diálogos sem os saltar. Esforcei-me mesmo por jogar o jogo como um RPG, e adorei! Um jogo bastante politizado a tentar mostrar muitos dos extremos do capitalismo, mas sempre dentro do espírito da história, há momentos em que a história é brilhante, e só mesmo no fim achei que as missões acessórias não eram assim tão divertidas, embora entenda que o espírito daquela cidade não permitia a mesma liberdade das anteriores. Mesmo assim, há que o admitir, a cidade final pareceu-me o ponto mais fraco da história, como aquela parte final duma composição em que já estamos cansados de escrever e despachamos um bocado.

Durante todo o tempo tentei sempre ficar amigo de todas as facções, e quase que o consegui. Agora que acabei sei que dava para fazer melhor, o que diz muito do replay value que este jogo tem. Ainda mais significativo, eu e o Gripe ajudámos as mesmas pessoas no primeiro mundo e o resultado final foi significativamente diferente. Tão significativo que eu continuei amigo de ambas as facções e ele teve de matar toda a gente duma delas. Demorei cerca de 30h a acabar o jogo, mas consigo imaginar mais umas 6 ou 7 maneiras de o jogar. Talvez mais. Adoro estes jogos mais condensados, sem áreas mortas. Praticamente jogamos sempre em alta rotação, sem tempo para perder o entusiasmo, e na altura que um jogo começa a cansar, The Outer Worlds acaba e mostra o que as nossas acções interferiram com a vida das pessoas com que nos cruzámos.

Há decisões difíceis de tomar, bastante difíceis. Como tentei ser sempre amigo de Deus e do Diabo, no momento da verdade somos amigos de todos, e custa mais a arruinar a vida a alguns.

Acho que o segundo mundo está divinalmente bem escrito já que toda a gente navega numa área cinzenta, e independentemente das pessoas pelas quais costumas torcer neste mundo vais ter dificuldade. As opções que o jogo me ofereceu no final do mundo foram das melhores que já vi num jogo que tenha jogado.

Se quiser avaliar este jogo como um shooter a avaliação não será brilhante. O sistema de VATS foi substituído por uma mecânica de tornar o tempo mais lento, que embora porreira não foi minimamente bem explicada. Somos acompanhados por dois NPCs praticamente desde o início do jogo, e rapidamente percebi que se destinavam a complementar as áreas em que a minha distribuição de pontos era mais fraca. Ora, isto era um RPG, investi em tudo o que não fosse luta, e se o meu dano sempre foi fraco, e os meus companheiros também começaram relativamente fracos, depois de completamente desenvolvidos, com armas e armaduras poderosas eram bastante poderosos para a dificuldade normal, tanto que muitas vezes já dava por mim a apanhar o loot enquanto eles lutavam sozinhos. Tirando o último nível, raramente tive dificuldades no combate no nível normal. Realço que nem sempre é fácil coordenar os NPC com as situações. Podes "programar" a sua personalidade para os tornar mais activos ou passivos, isso ajuda nos momentos em que queres jogar mais stealth ou de forma mais activa. Pessoalmente acho que stealth funciona mal, ou de forma pouco precisa se preferirem. Os nossos companheiros percebem perfeitamente quando queremos passar despercebidos, o maior problema é se quisermos matar só uma pessoa sem programarmos os NPC para serem passivos, aí mal matamos um eles identificam uma luta e tentam matar todos os outros. Pelo contrário, se estiverem em passivo, podemos estar a lutar com 20 pessoas que eles não identificam a luta à primeira.

Cada NPC tem uma personalidade própria e missões próprias que ajudam a caracterizá-los melhor. Algumas são somente razoáveis, mas há uma ou duas que são bastante boas. Têm interacções entre eles e mandam bocas uns aos outros. Isso é engraçado. Se tiveres paciência podes acompanhar o evoluir das suas relações. O jogo têm múltiplos elevadores que são usados como disfarce para teampos de loading (aliás o jogo têm toneladas de ecrãs de loading) e uma ou duas vezes eles conversam no elevador. É uma pena que o tivessem feito tão poucas vezes.

Já que mencionei loot, há por toda a parte e em grande quantidade. Embora os mundos sejam relativamente pequenos, somos constantemente recompensados com algo que satisfaz a nossa compulsão para acumular coisas que nunca vamos usar. O loot não é muito complexo, o que agradeci desde o início. Não há uma miríade de balas diferentes, os mods para armas e armadura são simples de perceber e aplicar. Temos bastante folga para carregar lixo, e há perks dos companheiros que ainda nos dão mais margem de conforto caso seja essa a tua cena. Consegues vender tudo o que apanhas, mas nunca precisei muito de dinheiro. Para ser sincero onde gastei mais foi a evoluir armas e armadura que tinham alguma característica que gostava.

Assim, The Outer Words é para mim uma pequena pérola. Sabendo que a Obsidian tem agora muito mais fundos à sua disposição as minhas preocupações são essencialmente o inverso das vossas. Vocês provavelmente querem um jogo com esta qualidade, mas com a dimensão do Fallout, a mim preocupa-me que haja a tentação de entrar no mundo AAA pela porta da dimensão e não da qualidade. Acho que fazem muita falta experiências mais contidas e controladas como The Outer Worlds. Manter um jogo mais pequeno mas sem perda de qualidade na escrita, com ainda mais replay value seria o ideal para a minha maneira de jogar jogos. Afinal, o que mais pode uma produtora querer do que um jogo que agrada a quem gosta e quem não gosta do género? Com o jogo no Game Pass, e com este a praticamente ser oferecido múltiplas vezes, este é um jogo a não perder!

  • Lançamento: 25 de Outubro de 2019
  • Plataformas: PC/Xbox One/PS4
  • Desenvolvedor: Obsidian Entertainment
  • Editora: Private Division
  • Nota Pessoal: 8,5/10
  • Analisado na versão para PC