2019 Nov 29 / 10:15

Análise: Superliminal

Nunca tinha jogado um jogo de puzzles tão estranho como Superliminal. Isto até o estranho se tornar normal e o normal ter ficado o estranho. Estranho? Estranho talvez não, mas pelo menos tenta ser diferente. Admitam que já valeu a pena lerem isto, só para verem a palavra “estranho” escrita três vezes seguidas.

Superliminal tenta criar um conceito diferente nos jogos de puzzles. Brinca com as perspectivas e com a noção que aquilo que vemos é o que é real. Tem momentos em que é realmente brilhante, com soluções que me encantaram pela sua inteligência, tanto que há momentos em que pensamos, todos pimpões, que sabemos a solução mas o jogo apresenta-nos outra completamente diferente que não esperávamos, e nos deixa ali cinco segundos a pensar: “apanhaste-me bem!” Isto é Superliminal no seu melhor.

O problema é que o jogo não é sempre assim. Um ambiente que mistura a narração e busca em corredor de Stanley Parable com uma outra narração mecânica e feminina que remete para GLADoS de Portal deixa-nos de água na boca no início do jogo, especialmente porque aí tudo é novidade e cada novo puzzle nos surpreende. No entanto é difícil manter este ritmo constantemente, e boa parte dos níveis são passados mecanicamente, como se o jogo quisesse que consolidássemos o que já aprendemos, contudo, o jogo é relativamente curto e acaba por nos atirar poucas novidades. Inventa com a mesma mecânica alguns ensaios de solução diferente. Isso escapava se o jogo não nos estimulasse desde a sua génese a pensar diferente, pensar fora da caixa. Estimular a nossa argúcia acaba por se virar contra o próprio jogo, ajudando-nos a apanhar as suas falhas com a mesma dedicação com que apanhamos os seus méritos.

Podemos certamente perdoar alguma repetição, ou a ilusão de diversidade de soluções, mascarada numa repetição de cara lavada, se as mecânicas não tiverem falhas, o que não acontece, algo que é difícil de perdoar, especialmente num jogo como este, onde a ilusão é a realidade e a realidade é a ilusão. Aconteceu-me amiúde questionar-me se estava a perceber a solução, ou se o jogo me estava a enganar quando na realidade eu estava certo, o jogo é que não me deixava avançar por uma questão milimétrica, quando era mais que óbvio que estava a tentar a solução correcta. Uma das vezes acabei por nem perceber o que fiz de diferente para o jogo me aceitar uma acção que na minha cabeça era clara, mas as mecânicas do jogo não me estavam a deixar realizar. A certo ponto aceitei que o jogo era uma diva, e que tinha os seus momentos de teimosia em que embirrava com a minha chico-espertice de trazer por casa.

Jogamos no mundo dos sonhos, sempre num sonho que não nos deixa acordar. Aparentemente é um procedimento terapêutico, mas que a certa altura correu mal. A história não é bem clara até chegar ao final, nesse esforço stanleyparabolesco de criar uma narrativa múltipla que na realidade não o é nem nunca o foi, apenas para nos oferecer um final decepcionante e anticlimático. Salva-se que até ao final o jogo tem grandes momentos, até chega a ter momentos de exploração onde encontramos segredos que no Steam certamente nos dariam um achievement, mas que a Epic ainda não nos oferece absolutamente nada, contudo isso é para quem liga a essa niquices.

Podemos olhar para o jogo e dizer que é curto. Terminei-o em pouco mais de 3h. Só tive de ver uma solução dum puzzle por isso não é muito difícil ou não conseguiria acabá-lo, dada a minha natural inaptidão para estes jogos. Eu olhei para o jogo como se ele tivesse o tamanho certo. Estava bom, mais que isso enjoava, senti que já não havia mais nada para oferecer. Custa 20€. É carote para a experiência que oferece, mas eu gostei bastante de o jogar. Olhando a que o recebi de borla, também é mais fácil dizer isto.

Então, vale a pena? Vale sim. É um bom jogo. É diferente. Tem momentos em que roça a perfeição na forma sublime em que nos apanha despercebidos, mesmo na nossa tentativa de nos mantermos atentos a qualquer artimanha que nos possa atirar. Os jogadores mais hardcore poderão achá-lo fácil, os menos hardcore poderão achá-lo curto, mas ambos irão certamente apreciar o jogo por aquilo que ele é, uma experiência. Se o apanharem numa promoção, experimentem. Vale a pena.

  • Lançamento: 12 de Novembro de 2019
  • Plataformas: PC
  • Desenvolvedor: Pillow Castle
  • Editora: Pillow Castle
  • Nota Pessoal: 7,5/10
  • Cópia para análise gentilmente cedida por Pillow Castle.